Arquivo

Monthly Archives: Janeiro 2012

Não falo da pilhagem aos restos dos rendimentos da classe média e aos parcos ou nenhuns das classes mais baixas, para uma descarada transferência destes para o sector financeiro. Não falo no esvaziamento, nem na mercantilização de serviços públicos, tornando-os mais um filão para a avara, imbecil e incompetente classe empresarial e/ou financeira portuguesa.

Ao contrário do que possa sugerir o título,não vou falar de futebol. Poderia enveredar por piadas fáceis com o apelido do treinador do Sporting, mas vou evitá-lo.

Vou sim falar de acontecimentos recentes que me têm levado, precisamente, aos limites da paciência. Limites esses, que em alguém que se diz muito racional, não podem deixar de emitir um alerta imediato assim que são atingidos. Ver fluir o meu pensamento para a aceitação ou necessidade de violência, admito, não me agrada.

Apesar de associados, não falo destes meses de governação da direita. Não falo da pilhagem aos restos dos rendimentos da classe média e aos parcos ou nenhuns das classes mais baixas, para uma descarada transferência destes para o sector financeiro. Não falo no esvaziamento, nem na mercantilização de serviços públicos, tornando-os mais um filão para a avara, imbecil e incompetente classe empresarial e/ou financeira portuguesa. Não falo da penalização fiscal que sofrem os rendimentos do trabalho, em contraponto com a protecção aos rendimentos do capital. Na realidade, tudo isto era tão óbvio aquando da eleição deste governo, que dificilmente é por mim recebido com uma agitação maior do que o encolher de ombros de quem diz “eu bem avisei”.

O que tem vindo a mexer de forma preocupante comigo, tem sido a desfaçatez e a fossanguice labrega com que os perpetradores dos actos acima descritos os têm praticado. Poder-se-á alegar que o conteúdo de tais actos seria sempre revoltante, independentemente da forma utilizada para os anunciar. Mas a falta de escrúpulos a que se tem assistido no discurso deste governo e seus satélites demonstra algo de novo.

Atingimos um ponto altíssimo de insensibilidade. Ainda assim, ninguém pode acreditar que em dez milhões de habitantes, não haja um, que no limite do desespero perante o desemprego ou a pobreza iminente, não atinja também o limite da paciência face a governantes que aconselham boa parte da população qualificada deste país a abandoná-lo. Ou perante deputados carreiristas desta maioria que discursam alarvemente sobre as culpas dos “direitos adquiridos” na situação económica a que chegámos e as responsabilidades da geração anterior à minha, que sempre viveu abaixo do que lhe foi devido, mas que, para o próprio, deve realizar mais sacrifícios para garantir algumas migalhas para os mais jovens. E, pior, que não se sintam séria e pessoalmente ofendidos com o desdém com que o mais alto magistrado desta república fala dos seus bem mais que razoáveis rendimentos e se esquece dos seus proveitos de negócios nunca explicados com um dos bancos que mais esburacou as nossas contas públicas.

Assim, dificilmente estranharei ou condenarei se viermos a assistir a um cidadão que, perante tudo isto, venha a perder a cabeça numa visita de um destes dignitários a uma qualquer vacaria deste país, partindo para a agressão. E é esta insensibilidade e aceitação da possibilidade de violência que me preocupa. E que temo não ser o único a atingir.

Deixo-vos aqui com literatura suficiente para o fim de semana vindouro. Material para reflexão, porque a revolta começa com a abertura de horizontes. O tema recorrente é, pois bem, como o falhanço da austeridade enquanto política económica está finalmente a revelar que se trata de um projecto de redistribuição de riqueza da maioria para a minoria. Não se esqueçam que o Fórum Económico de Davos está em curso (25-29 Janeiro), onde os cleptomaníacos se juntam para planear o roubo à mão armada do resto do mundo.

Lunaticos!

Maxkeiser.com

Portugal may need second bailout
Resumo: Os mercados agitam-se que Portugal não consiga pagar as dívidas no valor de 11 biliões que tem a vencer em Setembro de 2013. Provável receita: mais austeridade em 2012, o que fará a falência quase certa em 2013. Extremamente racional.
Link:http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203806504577178911281720928.html?KEYWORDS=portugal

Pantaleão Relvas e a sua visitadora
Resumo: No fundo, o que Daniel Oliveira está a dizer é que este Governo está a enveredar pelo caminho de “crony capitalism” (capitalismo de compadrio, assente em tráfico de influências opaco),  dando as jóias da coroa aos amiguinhos corruptos (e que também podem retribuir as prendinhas mais tarde).
Link: http://aeiou.expresso.pt/pantaleao-relvas-e-a-sua-visitadora=f701142

Why I am not optimistic about Europe
Resumo: O autor deste blog é ligeiramente demagógico na forma como escreve (gosta de simplificar as suas explicações em listas e, frequentemente, em binómios) e adora promover-se, mas até consegue dizer umas verdades de quando em vez. E neste caso, a lição que tem a oferecer é: as raízes da crise europeia podem encontrar-se nos altos níveis de dívida privada (e não tanto Estatal) e nos desiquilíbrios macroeconómicos entre Alemanha e sul da Europa. Explicando: Quando a crise estalou em 2007/2008 nos EUA, os fundos de investimento, à procura de salvamento, atiraram-se aos “certificados de aforro” de dívida soberana na Europa, transferindo a bolha do mercado imobiliário americano para os mercados de dívida pública europeus. Contudo, dadas as fragilidades macroeconómicas da Europa (desfasamento Alemanha e Sul, enquadramento inadequado de política monetária), a bolha dos títulos soberanos encontrou ressonância na economia real (certamente ampliado pelos resgates aos bancos) e as políticas de austeridade que se lhe seguiram agravaram a espiral negativa. Consequência: falhanço da austeridade enquanto política económica, falência da Grécia e possivelmente falência portuguesa.
Link:http://www.creditwritedowns.com/2012/01/why-i-am-not-optimistic-about-europe.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+creditwritedowns+%28Credit+Writedowns%29&utm_content=Google+Reader

Angela Merkel casts doubt on saving Greece from financial meltdown
Resumo: Momento Histórico. A Merkel reconhece pela primeira vez, em público, que a “solução final” para lidar com a crise de dívida soberana europeia não resultou. “Angela Merkel has cast doubt for the first time on Europe’s chances of saving Greece from financial meltdown and sovereign default, conceding that Europe’s first ever multibillion euro bailout coupled with savage austerity was not working after a two-year crisis that has brought the single currency to the brink of unravelling.” Ou seja, o que ela está a dizer é: já salvámos os bancos alemães do abismo através do bail out à Grécia, Portugal e Irlanda, no que provavelmente constitui um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro que o mundo alguma vez já viu, e ao mesmo tempo forcei a Europa em dívida (nós) a passar por um “asset stripping”, ou pilhagem, e promovi governos de compadrio político, transformando a Europa mediterrânica na América latina da Europa (nos anos 70/80).
Link: http://www.guardian.co.uk/world/2012/jan/25/angela-merkel-greece-financial-meltdown

Europe at war with Iran
Resumo: Pablo Escobar escreve os melhores artigos de geoestratégia na Ásia Central. Neste caso, fala do suicídio económico que constitui para a Europa aplicar sanções económicas ao Irão, por 3 razões: 1) a Europa importa 25% do petróleo produzido no Irão, 2) A europa depende do Irão para avançar com o oleoduto Nabuco (que ligará o Turquemenistão – via Turquia, Bulgária, Roménia e Hungria – à Europa dita Ocidental) e finalmente, 3) os maiores beneficiários do petróleo Iraniano são a Grécia, a Itália e a Espanha. Certamente que um embargo energético, não ajudará em nada a economia dos países porcalhotos!
Link: http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/NA25Ak02.html

Asset Striping in Ireland (vídeo)
Resumo: Excelente resumo, em 20 minutos, da austeridade, do assalto aos bens públicos e ao contribuinte irlandês, a mafia internacional do FMI, UE e Bancos, emigração e mais ou menos todos os tópicos que abordamos até agora neste blog.

Revista de ImprensaGreece Lines Up Portugal
Resumo: O hipotético impacto da falência da Grécia sobre Portugal. O autor mostra como as medidas de austeridade estão a contribuir para uma contração acelerada da economia portuguesa e levanta as suas dúvidas quanto ao sucesso do programa de austeridade, dado que 2012 não pode contar com a medida extraordinária de “nacionalizar” os fundos de pensão do sector bancário e a contração da economia vai levar certamente à queda de receitas fiscais. Para dar a estocada final, se a Grécia for à falência, é possível que isso tenha o tal efeito de contágio. Os mercados são como prostitutas que espalham gonorreia.
Link: http://www.nakedcapitalism.com/2012/01/greece-lines-up-portugal.html

Portugal to need “debt haircut” as economy tips into Grecian downward spiral
Resumo: O mais que previsível falhanço económico (mas não político e ideológico!) das medidas de austeridade, visto por um respeitável colunista inglês. Espera-se que a contração da economia possa chegar a um total de -15% do PIB, que a queda das receitas fiscais torne a austeridade redundante e inútil, e que torne a falência nacional inevitável, com consequências imprevisíveis para o Euro e respectiva União Europeia. Como diz o autor: “there are deeper worries that sharp fiscal cuts by the free-market government of Pedro Passos Coelho may prove self-defeating (…and…) will push Portugal into the same downward spiral that has already engulfed Greece. (…) While all eyes are on Greece, it is the slower drama in Portugal that will ultimately determine the fate of the eurozone.”  Se Portugal for responsável por mandar a Europa abaixo, olhem, porreiro! Ao menos, em 800 anos, lá faríamos alguma coisa bem! O problema é que até lá, quem vai sofrer desmerecidamente é o povo.
Link: http://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/9026144/Portugal-to-need-debt-haircut-as-economy-tips-into-Grecian-downward-spiral.html

Romanians Discover Street Protest
Resumo: Depois de alguns anos de políticas de austeridade a la FMI, que solidificaram a oligarquia de novos-ricos romena (criada na sequência de privatizações corruptas do período pós-89), a população romena começou a revoltar-se. Os protestos de rua, levados a cabo por várias camadas representativas de 3 gerações (jovens, adultos e reformados), demonstra que a espécie de medidas de austeridade que favorecem a transferência de riqueza para o topo da pirâmide social atingiram um limite social e económico.
Link: http://ipsnews.net/news.asp?idnews=106515

Kaiser Report, Episode 239 (vídeo)
Resumo: Max Kaiser compara a economia global ao naufrágio do barco italiano Costa Concordia e explica o que são os mercados de futuro do petróleo e como isso influencia o preço de venda ao consumidor.
Link: http://rt.com/programs/keiser-report/episode-239-keiser-report/

EU becoming less tolerant, NGO says
Resumo: Os ataques ideológicos e físicos à figura do Outro, dentro das “nossas” fronteiras, estão a aumentar. Não é coincidência que esta tendência se verifique ao mesmo tempo que as condições económicas para as classes média e baixa pioram. O bode expiatório é sempre o imigrante.
Link: http://euobserver.com/22/114978

O que se passa em Portugal trata-se de um projecto político e social com ambições tão largas que se poderá mesmo considerar revolucionário. Uma revolução de direita. Uma revolução disfarçada e que está a ser feita nas costas daqueles que dependem apenas do rendimento do seu trabalho.

Caro Alex,

Li o teu artigo “A manifestação ou o Pastel de Nata” e gostaria de fazer uns comentários tangenciais. Não tenho nada a dizer acerca do que escreves, mas gostaria de verborrear um pouco sobre o contexto político que enquadra o teu artigo.

Reparei que para apelar à participação numa manif, que é de claro interesse para quem trabalha, achastes necessário esvaziar o dito apelo de qualquer conteúdo mais ideológico e interpretativo.

A necessidade de proceder deste modo demonstra como o espaço de debate intelectual em Portugal está limitado. Os opinion makers, com o Zé da Tasca em apoio imediato, proclamam verdades a alto e bom som, entre elas: que vivemos para além das nossas capacidades, que não se pode questionar a necessidade de cortes, que qualquer protesto é “politiquice”, que os comunistas são uma espécie de parque jurássico, que “etc etc etc”…

Esta abordagem satura o espaço de opinião pública com os velhinhos adágios de sempre (que vêm do bloco central e dos seus amiguinhos empresariais). Claro que isto não se faz só por fazer. Há uma intenção clara de uniformizar interpretações da situação portuguesa e marginalizar aqueles que têm algo diferente para dizer.

Está na altura de todos percebermos que a Austeridade é um projecto político que visa assegurar uma redistribuição de rendimentos invertida. Em vez de redistribuir dos que têm mais, o projecto político da austeridade visa assegurar que os rendimentos das classes mais baixas sejam comprimidos de forma a financiar o topo da nossa sociedade.

O Memorando de Entendimento com a Troika é, na verdade, um plano de ação política que visa criar uma rede institucional para proteger a elite com posse de meios financeiros (money-power, asset values, rendas capitalistas, etc). O que o PSD fez, pela mão do Coelho, foi copy-paste do memorando para o seu programa eleitoral.

Apenas como exemplo permitam-me listar algumas das medidas do memorando:

  • Reformar a lei da bancarrota pessoal em beneficio dos credores (isto num país em que as famílias tem altos níveis de endividamento)
  • Reduzir o número de funcionários públicos em 15% e desmantelar unidades de administração geográfica (Juntas de Freguesia – em curso)
  • Aumentar a proporção de trabalhadores com contratos temporários na administração pública (isto equivale a uma redução nos direitos dos trabalhadores e também a uma maior dependência do poder político dos trabalhadores da administração pública)
  • Reduzir o orçamento da Saúde por 30% (em curso)
  • Reduzir o período do subsídio de desemprego para um máximo de 18 meses e criar um plafond máximo para o subsídio bem como uma redução progressiva depois dos primeiros 6 meses (em curso)
  • Reduzir as indeminizações por despedimento e subvencionar despedimentos através do Estado (em curso)
  • Alterar a lei do trabalho para permitir criar uma força de trabalho volátil e contingente para o sector industrial e reduzir os direitos dos trabalhadores dos portos marítimos (as mercadorias têm que circular, caso contrário o capitalismo sofre!)
  • Reduzir a percentagem de horas extras que podem ser legalmente pagas (ou aumentar o horário de trabalho – em curso)
  • Avaliar e medir a representatividade dos sindicatos que negoceiam acordos colectivos e avaliar o impacto das suas exigências na competitividade das empresas e reduzir o poder sindical diminuindo o limite legal de tamanho da empresa/número de trabalhadores de forma a fragmentar o movimento sindical (esta medida é absolutamente escabrosa e, se nada mais falasse das intenções políticas que temos no governo, isto seria suficiente)
  • Ligar o financiamento das escolas a ratings de performance, quer sejam privadas ou públicas (isto vai ser fantástico! Está claro que o projecto político da austeridade quer dar dinheiro ao sector privado da educação e destruir o público)
  • Liberalizar mercados de gás e electricidade e eliminar preços regulados (não admira que os chineses estejam interessados na EDP – é fazer o povo pagar)
  • Reduzir o investimento estatal em energias renováveis (escandaloso!!!)
  • Privatizar o serviço de mercadorias da CP e privatizar as linhas suburbanas da CP (já não era fácil viajar em Lisboa, será ainda pior e mais caro)
  • Eliminar qualquer controlo sobre as rendas à habitação e criar mecanismos EXTRA-judiciais para despejar inquilinos  e reavaliar o valor fiscal de propriedade urbana (obviamente com vista a criar um mercado imobiliário que possa sustentar uma bolha de investimento…)

Estas são algumas das medidas que saltam à vista no memorando de entendimento. E são já suficientes para perceber que o processo a que Portugal está agora sujeito não é uma reestruturação, ou arranjo das contas públicas. Trata-se de um projecto político e social com ambições tão largas que se poderá mesmo considerar revolucionário (especialmente se o PSD e a Alemanha conseguirem empurrar o seu projecto de mudança constitucional de forma a inserir limites à despesa pública).  Uma revolução de direita. Uma revolução disfarçada e que está a ser feita nas costas daqueles que dependem apenas do rendimento do seu trabalho.

E ninguém pode argumentar contra, porque o espaço público de opinião está colonizado pelos cyborgs produzidos nas jotas, pelos Frankenstein dos comentários televisivos e notáveis colonistas deste nosso canteiro. E neste sentido, a revolução à direita é também muito pouco democrática e definitivamente opaca, porque os líderes revolucionários e os seus testas de ferro ideológicos não assumem os seus objectivos e escondem as suas ações por trás de discursos moralistas de avozinha e de compromissos internacionais. Compromissos internacionais que mostram até que ponto se está a criar uma classe capitalista transnacional, que co-opta as elites locais num projecto revolucionário a nível global de concentrar a riqueza extraída do que a todos pertence num pequeno grupo de pessoas.

Estamos assim numa situação em que temos de defender não só formas de criação e distribuição de riqueza mais justas, mas também defender os princípios básicos da democracia, cada vez mais erodidos: igualdade de todos os cidadãos, liberdade de expressão e solidariedade (que se expressa em justiça económica e social). Por isso, sim, vamos à manif e atrevamos-nos a falar de política e ideologias abertamente. Vejamos este governo e esta democracia liberal que temos pelo que verdadeiramente são: uma pilhagem às classes não-capitalistas.

Irei revelar, já na próxima frase, vários segredos praticamente quase tão bem guardados como a identidade dos maçons portugueses: os ajuntamentos populares em forma de multidão organizada que ostentam faixas e pancartas enquanto desfilam e entoam palavras de ordem nas ruas com o objectivo de mostrar desagrado por qualquer coisa ou de defender determinada ideia (conhecidos vulgarmente por “manifestações”) não foram inventadas nem pelo PCP nem pelo BE. E qualquer pessoa pode (deve) participar nelas caso concorde com os motivos pelos quais a dita cuja foi convocada, tendo ou não um cartão de militante de um qualquer partido na carteira, sendo de esquerda, de direita, do centro, de cima ou de baixo. Mas a conversa sobre os partidos fica para outra ocasião.

Admitindo que não faço a mínima ideia de qual foi a primeira manifestação digna desse nome, nem tão pouco de quem a organizou, e demonstrando com estas afirmações ao mesmo tempo a minha ignorância e humildade, já me sinto mais à vontade para verborrear um pouco de
História: Há cerca de 126 anos (foi só fazer as contas), no dia 1 de Maio de 1886 em Chicago, milhares de ociosos trabalhadores desfilaram para exigir a jornada de trabalho máxima de 8 horas por dia. Nesse mesmo dia, essa cambada de preguiçosos que não queria contribuir para a produtividade do país, fez uma greve geral nos EUA (a conversa sobre as greves também vai ficar para outra ocasião). Seguiram-se outras manifestações nos dias seguintes às quais a polícia tentou, carinhosamente, trazer os mandriões à razão, com um saldo final de 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua. Ah, quase que me ia esquecendo de um pormenor sem importância: 4 anos depois o governo norte-americano legislava um máximo de 8 horas de jornada de trabalho por dia.

E com isto acabei de justificar a utilidade das manifestações, responsabilizando ao mesmo tempo todos os que apenas dependem da sua força de trabalho para sobreviver e que não se insurjam contra os ataques constantes aos direitos dos trabalhadores como traidores da sua própria classe, mas também acusando-os de desrespeito para com a memória daqueles que lutaram para que hoje tenhamos férias, feriados, segurança social, e como diria o Lauro Dérmio personificado pelo grande filósofo português Herman José, and soion, and soion. No fundo uma vida de privilégios, ao contrário dos pobres seres humanos que tanto perderam com a crise, como Eduardo Catroga. Mas não nos vamos chatear por 54 mil pintelhos por mês. Ainda por cima pagos pelo Estado chinês.

Reconheço que, pelo menos em Portugal, os partidos, os sindicatos e outras organizações aproveitaram-se e continuam a aproveitar-se politicamente, apesar de em menor intensidade, dos movimentos sociais de génese apartidária. Mas quem nunca se tenha aproveitado de um jantar entre conhecidos para tentar engatar alguém que atire a primeira pedra. Por vezes há quem esqueça que essa entidade “o Partido” não é abstracta nem desprovida de qualquer participação humana, a julgar pela forma como se lê e ouve a leviandade com que muitos dizem que “a culpa é dos partidos”. Mas juro que a conversa sobre partidos fica para um próximo artigo.

Também confesso que, pelo menos em Portugal, historicamente, a maior parte das manifestações que conseguem mobilizar mais pessoas têm na sua organização partidos ou sindicatos. Mas felizmente essa realidade começou a mudar com a manifestação da Geração à Rasca no 12 de Março de 2011, que originou e evoluiu, de alguma forma, para a actual Plataforma 15 de Outubro. Eu sei que muitas das organizações pertencentes a esta plataforma podem parecer esquisitas, como a Marcha Global da Marijuana de Lisboa, a cuja organização eu pertenço, mas garanto que são bem intencionadas.

Podem-se tentar encontrar tantos objectivos para a realização de uma manifestação como correntes trotskistas na Grécia. Para mim, em última instância sobra apenas uma: CONTAGEM DE CABEÇAS. E por isso e mais uma vez como continuo sem saber muito bem como acabar artigos, apelo a todos os que concordam com o propósito da próxima manifestação do dia 21 de Janeiro a deixarem de lado as pintelhices e a participarem, nestas e nas vindouras, desde que, obviamente concordem com os seus objectivos. Nem que seja genericamente. Nem que lá hajam militantes de partidos. A todos os outros um grande puta-que-vos-pariu, vão lá ser empreendedores e fazer franchises do pastel de nata.

“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem” Rosa Luxemburgo.

Meu caro amigo Bruno Pimba,

Espero que esta missiva te vá encontrar de saúde, que nós por cá tudo bem. O tempo vai bom e tua tia Adozinda lá continua boa e de saúde, rija que nem um pêro. Este ano a vindima não foi nem bem, nem mal, antes pelo contrário. Puta do míldio pegou na vide três vezes este ano, tive eu e o teu primo, o Meireles, que andar a sulfatar aquela porra outras três. Mas ainda assim, a uva deu um pomadão, há-des provar aquando cá vieres. Lembras-te da tua prima, a Rosa Pintelhuda? Já pariu quatro vezes, desde que te fostes embora. E há um dos cachopos, o primeiro, que saiu meio aleijadinho, que é mesmo a tua cara. Mas enfim, quando cá vieres, voltas a provar. Do vinho, não da tua prima!

Mas agora que penso nisso, acaso contas voltar, meu amigo? Olha que eu se fosse a ti, nem de férias voltava a este buraco. É uma pena, não teres o bacalhau pelo Natal, não poderes ir tomar banho ao rio pelo Verão, nem veres o Quim Barreiros nas Festas do Campo das Cebolas, mas olha, não se pode ter tudo. E pior do que tudo isto, não ver o Benfica na Luz. Ah, desgraçado, como deves sofrer, aí tão longe.

Mas olha, fizeste tu se não bem. Vê lá que desde que te foste embora, faz agora aí uns quê? 5, 6 anos? Isto tudo… para dizer a verdade, não mudou um pentelho que fosse. E olha que isto não é ordinarice, meu amigo, bem pelo contrário. Isto sou eu a fazer-me a um tachito na EDP, utilizando os termos técnicos da malta que os conseguiu.

Mas de certeza que tens ouvido as notícias por aí, meu amigo. Que o país isto, que o país aquilo, que está falido, que já anda de mão estendida por essa Europa e China fora a pedir um dinheirito para manter isto aberto, e isto e aquilo. E tudo isso é verdade. Mas lembras-te como era no nosso tempo? Era a mesma merda, pá! Lembras-te? Quando nos ríamos à fartazana com o dinheiro sempre a pingar da CEE? E de como comprávamos jipes para ir para o Algarve engatar gajas e dizíamos que o Land Rover era um “veículo agrícola” para a lavoura? Sempre foi assim, não percebo a diferença. Sempre estivemos de mão estendida a ver o que pingava e depois a estourá-lo com grande classe. O pior é que antigamente, para o dinheiro cair, bastava deixarmos nós de produzir e garantir que lhes comprávamos as coisas a eles. Só que parece que agora, os que davam já não têm mais para dar (ou não querem) e então os que podem, cobram-se e cobrem-se bem de juros.

E aí sim, a coisa mudou. Nem fazemos nosso, nem temos dinheiro para comprar as coisas dos outros. E parece que assumimos compromissos, também. E eu isso já nem vou discutir, meu amigo. Sempre ouvi dizer que quem assume compromissos, deve cumpri-los (pode-se é discutir como é que se cai assim nas dívidas, mas isso falo contigo na próxima carta). E pronto, eu acho muito bem, paguemos, então! Mas espera lá! Eu não pedi dinheiro a ninguém! Ou será que pedi? É que dizem os gajos que foram agora eleitos, Cavaco incluído, que andei a viver acima das minhas possibilidades estes anos todos. Acaso já te falei neles, já sabes quem são?

Lembras-te do governo de quando ainda cá estavas? É mais ou menos a mesma merda! Até o Portas está lá outra vez! Mas olha que estes gajos não são sequer políticos, a mim não me enganam eles. Que são políticos, que são isto e aquilo. Eu é que já os topei! Estes gajos são mas é uma comissão de liquidação. O país foi à falência e ninguém quis assumir. E agora os credores foram colocados a administrar isto, para vender tudo por tuta e meia para recuperar algum. E adivinha? Isto é mesmo como nas empresas. Primeiro, os bancos e afins, depois o Estado, fornecedores e se sobrasse algum, lá iria para os trabalhadores. E é isto que ainda hoje não entendo. Mas porque há de valer o dinheiro dos bancos mais do que o meu? E vê lá que até conseguiram meter na cabeça de muito boa gente que isto é verdade. Que andámos mesmo a viver acima das nossas possibilidades.

Mas ora pensa lá comigo. Diz que foram os bancos que arrastaram o mundo para esta crise, certo? E diz que muita gente fica a dever dinheiro aos bancos, de empréstimos que pede, certo? Mas conheces algum banco que tenha ido à falência por causa do crédito mal parado? Porque é que tenho a ideia que todos os bancos que faliram foram por gestão criminosa? E que os outros continuam com lucros monstruosos? E porque é que a banca não há-de ser uma actividade económica de risco como outra qualquer? O Antunes, o da Tasca, também levou aquilo à falência e ninguém lhe botou a mão. E o Amorim, o que vende vinho, ficou a arder com 600 euros em garrafões de palheto e olha, nunca mais os vê. Não há ninguém do Governo a comprar a tasca ao Antunes, a pagar os 600€ ao Amorim, a descobrir lá mais dívidas de 15 em 15 dias, a por os contribuintes a pagá-las, a gastar o suficiente para tornar a Tasca num restaurante de 3 estrelas Michelin e depois a vendê-lo por meio tostão aos angolanos. E porquê? Qual é a diferença? Onde é que ele contribuiu menos para o país que o BPN, se no BPN nem bifanas como as da mulher dele se serviam? É isto que não entendo, meu amigo. E é assim por todo o lado. Para ir à terra, agora já pagas e pagas bem, que as SCUTs já não são SCUTs. Queres ir para Sendim pela Auto-estrada, pagas os olhos da cara. E a Estrada Nacional está a vergonha que tu sabes, não teve um pingo de alcatrão novo desde que te foste embora. Ainda na última vez que lá fui atropelei três cabritos a desviar-me de um buraco. Vá lá que foi na Páscoa, mas imagina se era no Natal? Tinha que os congelar e não tenho arca para aquilo tudo. Diz que o filho do Moreira, aquele pastorzito, é que saiu uma vez de manhã com o gado e nunca mais apareceu. E agora que me lembro, foi mais ou menos desde essa altura. Bom, adiante.

E os hospitais? 20€ para ir a uma urgência no hospital! 20€!!!! Por 20€, vou ver o Benfica e ainda bebo uma imperial e como um courato. E fico bem mais bem-disposto, do que quando estou doente. E seja na saúde, seja nas estradas, a história é a mesma. Pagas, e bem, (em muitos sítios a privados) e depois estes ainda mandam as facturas com as despesas para o Estado. Olha lá os hospitais “publico-privados” e as estradas concessionadas? A parceria é justa, há divisão clara no que cada um faz: o público paga, o privado recebe, para não sobrecarregar ninguém a fazer tudo. Só para veres, havias de ver o berreiro que os das escolas privadas fizeram quando, há coisa de ano, ano e meio, o Sócrates disse que lhes ia fechar a torneira: “Ai, valha-me deus! Isto é uma desgraça! Belzebu!”. Foi para lá este governo e é vê-los todos caladinhos. Nunca mais ninguém os ouviu, desde que lhes foi garantido dinheiro para os próximos 5 anos. Mas, e dinheiro para o ensino público? Viste-lo? Nem eu… Pararam obras nas escolas, acabou-se lá com aquilo das Novas Oportunidades. E logo agora, que eu já estava com ela fisgada para acabar o 8º ano num instante!

E é como eu te digo, meu amigo. Estou farto. Farto de não ser ninguém para o que interessa, mas sentir que tenho o peso todo em cima dos ombros quando toca a pagar o que alguém gastou ou distribuiu mal. Este ano, havias de ver a tristeza que foi o Natal. Levou já tudo uma talhada de não sei quantos por cento no subsídio de Natal (e não sei mesmo quantos, porque nem consegui perceber com as contas que eles arranjam para nos baralhar). Pode ser que não acredites, mas viu-se que toda a gente cumpriu o Natal por frete. E o Ano Novo a mesma história. E para os próximos dois anos, funcionários públicos nem vêm um subsídiozito que seja. O problema é que o dinheiro todo que esta gente vai dar, mal dá para pagar o fogo-de-artifício na Madeira, que o cabrão do Alberto João continua a mandar, para inaugurar estradas que não vão para lado nenhum. E já deves ter adivinhado, mas a corja do Governo é da mesma cor do gajo, nem preciso de te dizer.

E agora já deves estar a perguntar: “Alto lá, Dani! Então, tu já me disseste que a Madeira ainda é PSD, que o Governo é PSD e que até o Presidente da República é o Cavaco! Mas estão-se a queixar do quê?”. E aí tens razão, meu amigo. Já nem me quero queixar mais. Triste povo este, que gosta de levar chibatadas, sejam na carteira, sejam no lombo. É por isso que isto chega para mim, que quero ir para ao pé de ti. Seja lá para onde for. Se vires aí um buraquinho para trabalhar, a servir num café que seja, ou na lavoura, conta comigo. Dizem-me que lá fora também está mau e que também está tudo a sofrer cortes. E eu bem sei que é verdade. Mas a fazerem-me cortes em 3000€ de ordenado passava eu bem melhor do que passo agora.

(Diz que carregando na fotografia, há um link para um vídeo, lindo, por sinal! Diz que isto está assim porque eu não sei por vídeos com uma imagem exemplificativa aqui no blogue..)

Danidapenha

Caríssimo compadre da Penha,

Li a tua carta com alegria, neste meu desterro nevado. Dá-me um certo conforto que, em casa, a vida continua com o seu passo sólido. A certa altura temi que a Rosa Pintelhuda ainda fosse abortar a torto e direito. Há que louvar a sua decisão em viver católica e empobrecida. Porque, meu camarada, por essa Europa fora, não há país que tenha mais escrúpulos morais que o nosso Portugal. Exceptuando talvez em assuntos de corrupção, política e futebolística. E cunhas. E arranjos. E administração estatal. E tribunais. Vá, não sejamos picuinhas, a moral católica é boa e isso é que importa.

Tenho acompanhado vagamente a situação em Portugal através das notícias de um parágrafo no DN ou no Público. Porque agora, como dizes, é moda cobrar por tudo em Portugal. Ao que parece, até para ver televisão. Há que pagar o cabo porque agora é tudo digitalíssimo! Ao que chegaram as coisas. Uma pessoa vê-se obrigada a pagar até pela propaganda que lhe é enfiada garganta abaixo pela televisão. Não é portanto de estranhar que para acompanhar as notícias na internet também se cobre. Homem, nem fugindo de Portugal um cidadão de vê livre da sofreguidão por taxas.

Aqui me encontro fazem agora cinco anos. Vim-me a fazer pela vida, porque na altura, como bem disseste, a crise já andava por aí. O único trabalho que consegui foi uma espécie de estágio financiado pelo Instituto do Desemprego de forma a tirar o meu nome da lista dos desempregados e embelezar a estatística semestral. Afinal daria um certo ar de mofo se muitos jovem recém licenciados aparecem como desempregados. Depois era aquela chatice que se sabe: aparecer no fundo das tabelas da OSCE e doutros anagramas internacionais. E nós sabemos como isso estraga o apetite aos nossos governantes quando têm os seus frequentes jantares de chefes de coisas em variadas capitais europeias.

Decidi mandar tudo ao inferno. Sentia-me jovem e com muito pouco a perder. Na verdade, tinha só a ganhar: alguma dignidade de passar por processos de selecção sem cunhas e baseado em algum mérito. E digo algum, porque no estrangeiro também se fazem coisas estranhas, mas tenho a impressão que menos mal que em Portugal. 5 anos depois, cá me encontro, com um mestrado concluído e pelo qual não tive de pagar nem um cêntimo e já vou no meu terceiro emprego, todos eles conduzindo a uma espécie de melhoria profissional e salarial. Uma coisa que nem me passava na cabeça quando estava em Portugal.

E, camarada, essa é a grande diferença. Desde que empacotei a chouriça na mala de cartão, que os meus horizontes de labrego expandiram-se. Agora sou uma espécie de labrego cosmopolita. Acredito em mim e sei que posso fazer. O quê? Seja o que vier! Tivesse eu ficado em Portugal, estaria contente a trabalhar a recibos verdes e a ser vergastado por um patronato à Antigo Regime (daquele que existia em França). E a culpar-me a mim pelas chibatadas.

Mas a vida de emigrante tem os seus problemas. No meu caso, vivo na incerteza de apátrida: não beneficio de qualquer apoio estatal, nem de Portugal nem onde estou. Se calha o meu emprego afundar-se nesta corrente, que arrasta tudo o que seja valor monetário para salvar bancos, não tenho rede de segurança alguma. Nem a mais básica de todas: a família. Estivesse em Portugal, ao menos poderia ficar em casa dos pais em caso de urgência. Aqui nem isso. Por vezes, dá-me calafrios essa sensação de isolamento, mas sei conscientemente que há muitas mais pessoas como eu e muitas delas até vivem nos países da sua nacionalidade. Por isso, evito queixar-me.

Em balanço, não tenho planos de regressar. Só em caso de necessidade última. Quedar-me-ei no estrangeiro. Portugal trata o seu povo mal e sem apreço. Pelo menos aqui, uma pessoa consegue ser respeitada. Mesmo que o país onde esteja agora tenha também uma gravíssima crise económica e uma deriva fascista. No estrangeiro te espero, compadre!

Bruno Pimba!