A EDP e o capitalismo global

Foi anunciada recentemente a empresa vencedora da venda da parte da EDP detida pelo Estado Português. Surpreendentemente, o vencedor foi uma companhia estatal chinesa, a “Three Gorges”. Como o erudito Ricardo Araújo Pereira explicou no Governo Sombra (programa da TSF de 6 de Janeiro de 2012), é engraçado que o nosso Governo liberal, anti intervenção estatal e todo a favor de Mais Sociedade, tenha escolhido privatizar uma das mais importantes companhias no panorama nacional, em termos dos serviços prestados e da sua influência económica, vendendo-a a uma empresa estatal da China.

Mas que tipo de liberais temos no PSD?  Obviamente, o mesmo tipo de liberais que temos por esse mundo fora. Pertencem àquela estirpe especial, a tal denominada “neo”, que gosta de falar de mercados, da liberdade de mercados e de reduzir o âmbito da acção humana ao mercantilismo monetário. Uma agenda ideológica que é muito bem ilustrada pelo slogan da revista Reason:  Free Minds & Free Markets (Mentes e Mercados Livres), como se uma coisa implicasse a outra.
O que a venda da participação do Estado na EDP mostra é que finalmente Portugal deixou de estar atrasado em relação ao mundo. O Passos Coelho e a sua corte (e também o Sócrates e antes dele o Cavaco, como PM) mostram como ideologicamente estão par a par com o melhor que se faz por esse mundo fora. Não ficam a dever nada à Chicago School e são tão bons que até os expoentes europeus de neo-liberalismo elogiam Portugal. Temos razões para estar orgulhosos. Estamos finalmente integrados no mundo. Somos um país moderno, na crista da onda político-económica.

E que quero eu dizer com o parágrafo em cima? Simplesmente, o que o neoliberalismo criou, é o Estado Social para as grandes empresas. Ou seja, isso de mercado livre é relativo. O mercado só é livre quando interessa pilhar o Estado, seja para comprar a preço de bagatela valores estratégicos ou para salvar o sector financeiro à beira da bancarrota por culpa própria, transferindo riqueza que é do domínio público para o domínio privado. Mas por privado leia-se aqui: uma quantas grandes empresas que enriquecem o tal 1% a que o movimento Occupy Wall Street se refere.  Não é certamente para nós. A nós calha-nos pagar os buracos que os ricalhaços abriram através de mais impostos e menos serviços de tipo comunitário (por exemplo, educação, saúde, etc).

O Estado Chinês transformou-se na maior oligarquia capitalista que o mundo alguma vez viu. Falava-se há uns anos atrás (antes de 1989) da ditadura do proletariado. Pois olhem, a classe capitalista apoderou-se do aparelho estatal chinês e usa-o como veículo para suportar a acumulação e circulação de capital pelo mundo inteiro. A compra da EDP é apenas mais um pequeno episódio nesta história globalizada.

Isto, o que a mim me parece, é ser a criação de um novo domínio imperial, com base na China, que tem por objectivo extrair rendas e riqueza do resto do mundo. Mas atenção. Não estou com isto a defender o ocidente. Pelo contrário. A Europa e os Estados Unidos fazem e fizeram o mesmo. É altura de perceber que, seja para onde for que nos viremos, estamos sob a influência de grandes impérios. Se tivessem sidos os alemães a comprar a EDP o problema era o mesmo. É necessário fomentar a solidariedade internacional entre os espoliados e sem-capital do mundo dito subdesenvolvido e as camadas da população exploradas no mundo dito desenvolvido. Temos o mesmo objectivo: igualdade económica e política e um modelo de criação de valor que não seja cegamente orientado pelo lucro e pela concentração do poder (político e monetário) nas elites capitalistas.

Bruno Pimba!

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1 comment
  1. O Costa said:

    Em primeiro lugar o termo privatizar está mal empregue, visto que privatizar é vender a um privado, que eu saiba vender a uma empresa estatal não é privatizar, acho!

    Em segundo lugar, agora ninguém pode criticar quando falta a luz, visto que a compramos aos chineses.

    Para terminar, e agora a sério, após a electricidade ter subido perto de 20% num ano, surgem novos aumentos, escamoteados pela economia de estado, mas que na realidade são impostos indirectos. É o caso da TDT.
    A TDT vai obrigar que todo o contribuinte que não tem posses para pagar tv por cabo, gaste em novos equipamentos.
    Sem falar no “lobby” que as tv por cabo, que claramente, até agora ninguém me convenceu do contrario, indrominaram com a ANACOM e à vista de todos, 23% do custo destes equipamentos vão para o estado e para a UE (IVA), mas mensalmente há uma parcela que todos se esquecem, o consumo de electricidade que estes equipamentos gastam.
    Eis mais uma Renda do Estado que será duplamente taxada, por meio da factura da Edp, no IVA, e pela TAXA dos meios audio-visuais.

    Cumprimentos
    O Costa

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