Na volta do correio

Caríssimo compadre da Penha,

Li a tua carta com alegria, neste meu desterro nevado. Dá-me um certo conforto que, em casa, a vida continua com o seu passo sólido. A certa altura temi que a Rosa Pintelhuda ainda fosse abortar a torto e direito. Há que louvar a sua decisão em viver católica e empobrecida. Porque, meu camarada, por essa Europa fora, não há país que tenha mais escrúpulos morais que o nosso Portugal. Exceptuando talvez em assuntos de corrupção, política e futebolística. E cunhas. E arranjos. E administração estatal. E tribunais. Vá, não sejamos picuinhas, a moral católica é boa e isso é que importa.

Tenho acompanhado vagamente a situação em Portugal através das notícias de um parágrafo no DN ou no Público. Porque agora, como dizes, é moda cobrar por tudo em Portugal. Ao que parece, até para ver televisão. Há que pagar o cabo porque agora é tudo digitalíssimo! Ao que chegaram as coisas. Uma pessoa vê-se obrigada a pagar até pela propaganda que lhe é enfiada garganta abaixo pela televisão. Não é portanto de estranhar que para acompanhar as notícias na internet também se cobre. Homem, nem fugindo de Portugal um cidadão de vê livre da sofreguidão por taxas.

Aqui me encontro fazem agora cinco anos. Vim-me a fazer pela vida, porque na altura, como bem disseste, a crise já andava por aí. O único trabalho que consegui foi uma espécie de estágio financiado pelo Instituto do Desemprego de forma a tirar o meu nome da lista dos desempregados e embelezar a estatística semestral. Afinal daria um certo ar de mofo se muitos jovem recém licenciados aparecem como desempregados. Depois era aquela chatice que se sabe: aparecer no fundo das tabelas da OSCE e doutros anagramas internacionais. E nós sabemos como isso estraga o apetite aos nossos governantes quando têm os seus frequentes jantares de chefes de coisas em variadas capitais europeias.

Decidi mandar tudo ao inferno. Sentia-me jovem e com muito pouco a perder. Na verdade, tinha só a ganhar: alguma dignidade de passar por processos de selecção sem cunhas e baseado em algum mérito. E digo algum, porque no estrangeiro também se fazem coisas estranhas, mas tenho a impressão que menos mal que em Portugal. 5 anos depois, cá me encontro, com um mestrado concluído e pelo qual não tive de pagar nem um cêntimo e já vou no meu terceiro emprego, todos eles conduzindo a uma espécie de melhoria profissional e salarial. Uma coisa que nem me passava na cabeça quando estava em Portugal.

E, camarada, essa é a grande diferença. Desde que empacotei a chouriça na mala de cartão, que os meus horizontes de labrego expandiram-se. Agora sou uma espécie de labrego cosmopolita. Acredito em mim e sei que posso fazer. O quê? Seja o que vier! Tivesse eu ficado em Portugal, estaria contente a trabalhar a recibos verdes e a ser vergastado por um patronato à Antigo Regime (daquele que existia em França). E a culpar-me a mim pelas chibatadas.

Mas a vida de emigrante tem os seus problemas. No meu caso, vivo na incerteza de apátrida: não beneficio de qualquer apoio estatal, nem de Portugal nem onde estou. Se calha o meu emprego afundar-se nesta corrente, que arrasta tudo o que seja valor monetário para salvar bancos, não tenho rede de segurança alguma. Nem a mais básica de todas: a família. Estivesse em Portugal, ao menos poderia ficar em casa dos pais em caso de urgência. Aqui nem isso. Por vezes, dá-me calafrios essa sensação de isolamento, mas sei conscientemente que há muitas mais pessoas como eu e muitas delas até vivem nos países da sua nacionalidade. Por isso, evito queixar-me.

Em balanço, não tenho planos de regressar. Só em caso de necessidade última. Quedar-me-ei no estrangeiro. Portugal trata o seu povo mal e sem apreço. Pelo menos aqui, uma pessoa consegue ser respeitada. Mesmo que o país onde esteja agora tenha também uma gravíssima crise económica e uma deriva fascista. No estrangeiro te espero, compadre!

Bruno Pimba!

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