Vai depressa emigrante!

Meu caro amigo Bruno Pimba,

Espero que esta missiva te vá encontrar de saúde, que nós por cá tudo bem. O tempo vai bom e tua tia Adozinda lá continua boa e de saúde, rija que nem um pêro. Este ano a vindima não foi nem bem, nem mal, antes pelo contrário. Puta do míldio pegou na vide três vezes este ano, tive eu e o teu primo, o Meireles, que andar a sulfatar aquela porra outras três. Mas ainda assim, a uva deu um pomadão, há-des provar aquando cá vieres. Lembras-te da tua prima, a Rosa Pintelhuda? Já pariu quatro vezes, desde que te fostes embora. E há um dos cachopos, o primeiro, que saiu meio aleijadinho, que é mesmo a tua cara. Mas enfim, quando cá vieres, voltas a provar. Do vinho, não da tua prima!

Mas agora que penso nisso, acaso contas voltar, meu amigo? Olha que eu se fosse a ti, nem de férias voltava a este buraco. É uma pena, não teres o bacalhau pelo Natal, não poderes ir tomar banho ao rio pelo Verão, nem veres o Quim Barreiros nas Festas do Campo das Cebolas, mas olha, não se pode ter tudo. E pior do que tudo isto, não ver o Benfica na Luz. Ah, desgraçado, como deves sofrer, aí tão longe.

Mas olha, fizeste tu se não bem. Vê lá que desde que te foste embora, faz agora aí uns quê? 5, 6 anos? Isto tudo… para dizer a verdade, não mudou um pentelho que fosse. E olha que isto não é ordinarice, meu amigo, bem pelo contrário. Isto sou eu a fazer-me a um tachito na EDP, utilizando os termos técnicos da malta que os conseguiu.

Mas de certeza que tens ouvido as notícias por aí, meu amigo. Que o país isto, que o país aquilo, que está falido, que já anda de mão estendida por essa Europa e China fora a pedir um dinheirito para manter isto aberto, e isto e aquilo. E tudo isso é verdade. Mas lembras-te como era no nosso tempo? Era a mesma merda, pá! Lembras-te? Quando nos ríamos à fartazana com o dinheiro sempre a pingar da CEE? E de como comprávamos jipes para ir para o Algarve engatar gajas e dizíamos que o Land Rover era um “veículo agrícola” para a lavoura? Sempre foi assim, não percebo a diferença. Sempre estivemos de mão estendida a ver o que pingava e depois a estourá-lo com grande classe. O pior é que antigamente, para o dinheiro cair, bastava deixarmos nós de produzir e garantir que lhes comprávamos as coisas a eles. Só que parece que agora, os que davam já não têm mais para dar (ou não querem) e então os que podem, cobram-se e cobrem-se bem de juros.

E aí sim, a coisa mudou. Nem fazemos nosso, nem temos dinheiro para comprar as coisas dos outros. E parece que assumimos compromissos, também. E eu isso já nem vou discutir, meu amigo. Sempre ouvi dizer que quem assume compromissos, deve cumpri-los (pode-se é discutir como é que se cai assim nas dívidas, mas isso falo contigo na próxima carta). E pronto, eu acho muito bem, paguemos, então! Mas espera lá! Eu não pedi dinheiro a ninguém! Ou será que pedi? É que dizem os gajos que foram agora eleitos, Cavaco incluído, que andei a viver acima das minhas possibilidades estes anos todos. Acaso já te falei neles, já sabes quem são?

Lembras-te do governo de quando ainda cá estavas? É mais ou menos a mesma merda! Até o Portas está lá outra vez! Mas olha que estes gajos não são sequer políticos, a mim não me enganam eles. Que são políticos, que são isto e aquilo. Eu é que já os topei! Estes gajos são mas é uma comissão de liquidação. O país foi à falência e ninguém quis assumir. E agora os credores foram colocados a administrar isto, para vender tudo por tuta e meia para recuperar algum. E adivinha? Isto é mesmo como nas empresas. Primeiro, os bancos e afins, depois o Estado, fornecedores e se sobrasse algum, lá iria para os trabalhadores. E é isto que ainda hoje não entendo. Mas porque há de valer o dinheiro dos bancos mais do que o meu? E vê lá que até conseguiram meter na cabeça de muito boa gente que isto é verdade. Que andámos mesmo a viver acima das nossas possibilidades.

Mas ora pensa lá comigo. Diz que foram os bancos que arrastaram o mundo para esta crise, certo? E diz que muita gente fica a dever dinheiro aos bancos, de empréstimos que pede, certo? Mas conheces algum banco que tenha ido à falência por causa do crédito mal parado? Porque é que tenho a ideia que todos os bancos que faliram foram por gestão criminosa? E que os outros continuam com lucros monstruosos? E porque é que a banca não há-de ser uma actividade económica de risco como outra qualquer? O Antunes, o da Tasca, também levou aquilo à falência e ninguém lhe botou a mão. E o Amorim, o que vende vinho, ficou a arder com 600 euros em garrafões de palheto e olha, nunca mais os vê. Não há ninguém do Governo a comprar a tasca ao Antunes, a pagar os 600€ ao Amorim, a descobrir lá mais dívidas de 15 em 15 dias, a por os contribuintes a pagá-las, a gastar o suficiente para tornar a Tasca num restaurante de 3 estrelas Michelin e depois a vendê-lo por meio tostão aos angolanos. E porquê? Qual é a diferença? Onde é que ele contribuiu menos para o país que o BPN, se no BPN nem bifanas como as da mulher dele se serviam? É isto que não entendo, meu amigo. E é assim por todo o lado. Para ir à terra, agora já pagas e pagas bem, que as SCUTs já não são SCUTs. Queres ir para Sendim pela Auto-estrada, pagas os olhos da cara. E a Estrada Nacional está a vergonha que tu sabes, não teve um pingo de alcatrão novo desde que te foste embora. Ainda na última vez que lá fui atropelei três cabritos a desviar-me de um buraco. Vá lá que foi na Páscoa, mas imagina se era no Natal? Tinha que os congelar e não tenho arca para aquilo tudo. Diz que o filho do Moreira, aquele pastorzito, é que saiu uma vez de manhã com o gado e nunca mais apareceu. E agora que me lembro, foi mais ou menos desde essa altura. Bom, adiante.

E os hospitais? 20€ para ir a uma urgência no hospital! 20€!!!! Por 20€, vou ver o Benfica e ainda bebo uma imperial e como um courato. E fico bem mais bem-disposto, do que quando estou doente. E seja na saúde, seja nas estradas, a história é a mesma. Pagas, e bem, (em muitos sítios a privados) e depois estes ainda mandam as facturas com as despesas para o Estado. Olha lá os hospitais “publico-privados” e as estradas concessionadas? A parceria é justa, há divisão clara no que cada um faz: o público paga, o privado recebe, para não sobrecarregar ninguém a fazer tudo. Só para veres, havias de ver o berreiro que os das escolas privadas fizeram quando, há coisa de ano, ano e meio, o Sócrates disse que lhes ia fechar a torneira: “Ai, valha-me deus! Isto é uma desgraça! Belzebu!”. Foi para lá este governo e é vê-los todos caladinhos. Nunca mais ninguém os ouviu, desde que lhes foi garantido dinheiro para os próximos 5 anos. Mas, e dinheiro para o ensino público? Viste-lo? Nem eu… Pararam obras nas escolas, acabou-se lá com aquilo das Novas Oportunidades. E logo agora, que eu já estava com ela fisgada para acabar o 8º ano num instante!

E é como eu te digo, meu amigo. Estou farto. Farto de não ser ninguém para o que interessa, mas sentir que tenho o peso todo em cima dos ombros quando toca a pagar o que alguém gastou ou distribuiu mal. Este ano, havias de ver a tristeza que foi o Natal. Levou já tudo uma talhada de não sei quantos por cento no subsídio de Natal (e não sei mesmo quantos, porque nem consegui perceber com as contas que eles arranjam para nos baralhar). Pode ser que não acredites, mas viu-se que toda a gente cumpriu o Natal por frete. E o Ano Novo a mesma história. E para os próximos dois anos, funcionários públicos nem vêm um subsídiozito que seja. O problema é que o dinheiro todo que esta gente vai dar, mal dá para pagar o fogo-de-artifício na Madeira, que o cabrão do Alberto João continua a mandar, para inaugurar estradas que não vão para lado nenhum. E já deves ter adivinhado, mas a corja do Governo é da mesma cor do gajo, nem preciso de te dizer.

E agora já deves estar a perguntar: “Alto lá, Dani! Então, tu já me disseste que a Madeira ainda é PSD, que o Governo é PSD e que até o Presidente da República é o Cavaco! Mas estão-se a queixar do quê?”. E aí tens razão, meu amigo. Já nem me quero queixar mais. Triste povo este, que gosta de levar chibatadas, sejam na carteira, sejam no lombo. É por isso que isto chega para mim, que quero ir para ao pé de ti. Seja lá para onde for. Se vires aí um buraquinho para trabalhar, a servir num café que seja, ou na lavoura, conta comigo. Dizem-me que lá fora também está mau e que também está tudo a sofrer cortes. E eu bem sei que é verdade. Mas a fazerem-me cortes em 3000€ de ordenado passava eu bem melhor do que passo agora.

(Diz que carregando na fotografia, há um link para um vídeo, lindo, por sinal! Diz que isto está assim porque eu não sei por vídeos com uma imagem exemplificativa aqui no blogue..)

Danidapenha

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