A manifestação ou o Pastel de Nata

Irei revelar, já na próxima frase, vários segredos praticamente quase tão bem guardados como a identidade dos maçons portugueses: os ajuntamentos populares em forma de multidão organizada que ostentam faixas e pancartas enquanto desfilam e entoam palavras de ordem nas ruas com o objectivo de mostrar desagrado por qualquer coisa ou de defender determinada ideia (conhecidos vulgarmente por “manifestações”) não foram inventadas nem pelo PCP nem pelo BE. E qualquer pessoa pode (deve) participar nelas caso concorde com os motivos pelos quais a dita cuja foi convocada, tendo ou não um cartão de militante de um qualquer partido na carteira, sendo de esquerda, de direita, do centro, de cima ou de baixo. Mas a conversa sobre os partidos fica para outra ocasião.

Admitindo que não faço a mínima ideia de qual foi a primeira manifestação digna desse nome, nem tão pouco de quem a organizou, e demonstrando com estas afirmações ao mesmo tempo a minha ignorância e humildade, já me sinto mais à vontade para verborrear um pouco de
História: Há cerca de 126 anos (foi só fazer as contas), no dia 1 de Maio de 1886 em Chicago, milhares de ociosos trabalhadores desfilaram para exigir a jornada de trabalho máxima de 8 horas por dia. Nesse mesmo dia, essa cambada de preguiçosos que não queria contribuir para a produtividade do país, fez uma greve geral nos EUA (a conversa sobre as greves também vai ficar para outra ocasião). Seguiram-se outras manifestações nos dias seguintes às quais a polícia tentou, carinhosamente, trazer os mandriões à razão, com um saldo final de 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua. Ah, quase que me ia esquecendo de um pormenor sem importância: 4 anos depois o governo norte-americano legislava um máximo de 8 horas de jornada de trabalho por dia.

E com isto acabei de justificar a utilidade das manifestações, responsabilizando ao mesmo tempo todos os que apenas dependem da sua força de trabalho para sobreviver e que não se insurjam contra os ataques constantes aos direitos dos trabalhadores como traidores da sua própria classe, mas também acusando-os de desrespeito para com a memória daqueles que lutaram para que hoje tenhamos férias, feriados, segurança social, e como diria o Lauro Dérmio personificado pelo grande filósofo português Herman José, and soion, and soion. No fundo uma vida de privilégios, ao contrário dos pobres seres humanos que tanto perderam com a crise, como Eduardo Catroga. Mas não nos vamos chatear por 54 mil pintelhos por mês. Ainda por cima pagos pelo Estado chinês.

Reconheço que, pelo menos em Portugal, os partidos, os sindicatos e outras organizações aproveitaram-se e continuam a aproveitar-se politicamente, apesar de em menor intensidade, dos movimentos sociais de génese apartidária. Mas quem nunca se tenha aproveitado de um jantar entre conhecidos para tentar engatar alguém que atire a primeira pedra. Por vezes há quem esqueça que essa entidade “o Partido” não é abstracta nem desprovida de qualquer participação humana, a julgar pela forma como se lê e ouve a leviandade com que muitos dizem que “a culpa é dos partidos”. Mas juro que a conversa sobre partidos fica para um próximo artigo.

Também confesso que, pelo menos em Portugal, historicamente, a maior parte das manifestações que conseguem mobilizar mais pessoas têm na sua organização partidos ou sindicatos. Mas felizmente essa realidade começou a mudar com a manifestação da Geração à Rasca no 12 de Março de 2011, que originou e evoluiu, de alguma forma, para a actual Plataforma 15 de Outubro. Eu sei que muitas das organizações pertencentes a esta plataforma podem parecer esquisitas, como a Marcha Global da Marijuana de Lisboa, a cuja organização eu pertenço, mas garanto que são bem intencionadas.

Podem-se tentar encontrar tantos objectivos para a realização de uma manifestação como correntes trotskistas na Grécia. Para mim, em última instância sobra apenas uma: CONTAGEM DE CABEÇAS. E por isso e mais uma vez como continuo sem saber muito bem como acabar artigos, apelo a todos os que concordam com o propósito da próxima manifestação do dia 21 de Janeiro a deixarem de lado as pintelhices e a participarem, nestas e nas vindouras, desde que, obviamente concordem com os seus objectivos. Nem que seja genericamente. Nem que lá hajam militantes de partidos. A todos os outros um grande puta-que-vos-pariu, vão lá ser empreendedores e fazer franchises do pastel de nata.

“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem” Rosa Luxemburgo.

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