Junta a tua mortalha à nossa

Aproveito este fantástico lema, que tanta polémica levantou há cerca de 9 anos atrás (piada privada), não só para evitar que ele caia no esquecimento mas também como apelo populista à leitura do artigo que se segue. Tentarei em jeito de conclusão justificar politicamente a escolha deste título mais lá para baixo.

Tal como nós, os gregos livraram-se de uma ditatura militar em 1974. Tal como nós, os gregos eram considerados um povo de “brandos costumes”, aliás tal como os egípcios. Pobres, mas honrados (leia-se humildes no sentido passivo do termo). Ao contrário de nós, que mantivemos ocupações em África a custa de milhares de mortos, os gregos foram ocupados pelos nazis durante a 2ª guerra mundial e libertaram-se sem ajuda alheia, apesar do que diz alguma História. Ao contrário de nós, a sua cultura de participação política esteve sempre presente, muito graças aos contributos que deram ao mundo desde a sua origem neste campo (a excepção em Portugal foi o PREC). Para concluir este exercício miserável de análise política comparada, de salientar que Portugal e Grécia tem sensivelmente a mesma população, com a diferença de o PIB grego ser sensivelmente o dobro do nosso.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Manolis Glezos há 6 anos atrás, por ocasião de um festival organizado pelo KOE (Organização Comunista Grega de tendência maoísta) que culminou num acampamento na ilha de Naxos, onde reside. Cidadão admirável, com um passado político notável e de respeito, cujo episódio mais conhecido remonta a 1941, no qual sob ocupação nazi resolveu ir roubar a bandeira do III Reich que se encontrava hasteada no cimo da Acrópole. Esta brincadeira valeu-lhe a prisão em campo de concentração na Grécia (onde morreram milhares de gregos, maioritariamente resistentes comunistas) e só não foi morto devido à forte mobilização nacional e internacional que o seu acto desencadeou em sua defesa. Fiquei na altura surpreendido com a lucidez e sagacidade política que este jovem de 80 e tal anos demonstrava. Afinal, podemos ser politicamente inovadores quando velhos e estupidamente retrógados enquanto jovens.

Foi, portanto, sem grande espanto que me deparei com a fotografia de Manolis Glezos em confronto directo com a polícia grega. Não esperaria outra coisa de quem combateu o nazi-fascismo alemão com a tenacidade que ele o fez nesta altura de luta contra o fascismo financeiro que se está a impor aos países da periferia da Europa. Apesar de ter sido sempre crítico de quem utilizava o termo “fascismo” para caracterizar qualquer coisa reaccionária, conservadora ou ambas, com receio que se “gastasse” o termo, não tenho pejo em afirmar que a realidade da Grécia hoje e de Portugal já amanhã, é esta. Um novo tipo de fascismo, desta vez com a ideologia liberal transnacional dos mercados em substituição das teorias de superioridade nacional ou racial.

E é aqui que, assim de socapa, recupero o título do artigo. Que os trabalhadores não só por essa Europa afora, mas pelo mundo, consigam perceber que só existem dois tipos de pessoas: ricos ou pobres, exploradores ou explorados. Para quem ainda não percebeu a ideia, vou abusar ainda mais de chavões marxistas: Quem controla os meios de produção e distribuição por um lado e quem apenas tem a sua força de trabalho para vender. Porque uns só sobrevivem graças aos outros, e os outros não precisam de uns para sobreviver. Estou solidário com o povo grego, também porque sei que o governo português está solidário com o governo grego. E ambos estão solidários com o governo alemão e francês, que estão ambos solidários um com o outro. E o poder político que governa o mundo neste momento é mera correia de transmissão do capital financeiro.

Alex Gomes

Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte. 

Eça de Queirós, in ‘Farpas (1872)’

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