P’la sua saúde!

Este javardo aumento das taxas moderadoras vai afastar gente dos hospitais. É inegável. Tal como o dos transportes afasta pessoas dos autocarros e metro, tal como o das propinas afastou gente das universidades, tal como o de tudo afasta gente de Portugal.

Hoje, o que me traz aqui é a saúde. Porque já diz o povo, é preciso é tê-la, porque o resto lá virá por acréscimo. Ou pelo menos, no tempo em que o povo sabia o que dizia, era assim. Hoje já se percebe que o resto, trabalho e dinheiro pelo menos, cada vez mais dificilmente vêm a cada um de nós. E sem dinheiro, até o raio da saúde pode ser descurada.

Na passada semana, acossado por um problema menor, lá me deixei levar ao hospital. Por absurdo, e prova de como, pelo menos a mim, este desprezo pela saúde pública por parte do Governo já me inverteu o raciocínio, a ida ao privado foi logo a primeira hipótese. Apesar da longa espera a que fui sujeito, verdade seja dita, é que após ser atendido, em menos de nada me  estavam a ser chutados litros de soro para a veia, juntamente com um ror de drogas, enquanto fazia uma bateria de análises. Resultado disto, diagnóstico feito e recuperação em cerca de 2 ou 3 dias. Tudo isto pela módica quantia de 37€ (à parte o pagamento do seguro, mas isso é questão para outras linhas que não estas). Enquanto cliente, e sabendo que na concorrência (os hospitais públicos, portanto) me seriam cobrados de imediato 20€ e, provavelmente, haveria grande resistência à realização de terapêuticas e diagnósticos complementares por contenção de custos, só posso estar satisfeito. E é com isto que me entristeço e preocupo. Também na saúde, os impostos que pago de pouco ou nada servem. Para pagar 20€ para entrar num hospital público, ao menos que tivesse direito a uma bebida branca ou a duas cervejas.

E se eu, por sorte, ainda me posso dar ao luxo de fazer esta escolha, pagando duplamente por um serviço que devia ser público (para não dizer gratuito), não pode a minha consciência ficar tranquila sabendo da mossa que 20€ causam na maioria dos orçamentos familiares, para mais acrescidos dos custos de exames complementares, mais transporte, mais medicamentos, mais eventuais baixas.

Este javardo aumento das taxas moderadoras vai afastar gente dos hospitais. É inegável. Tal como o dos transportes afasta pessoas dos autocarros e metro, tal como o das propinas afastou gente das universidades, tal como o de tudo afasta gente de Portugal. O problema é que aqui, as consequências podem ser bem mais graves. A pequena dor passa a infecção, o desconforto é mais grave do que se pensava, o caroço que não é nada, é um tumor que precisava de ter sido detectado mais cedo. E tudo isto porque na hora de ir ao hospital, podemos ter de pensar se os 20€ não darão mais jeito para comer até ao fim do mês.

Mas enfim, compreende-se que se deva pagar e bem por estes serviços. É preciso é que não falte para as Parcerias Público-Privadas, que não falte para os gestores e empreiteiros ligados à Parque Escolar, que não falte para a Lusoponte, que não falte para o capital chinês e para o sultão de Omã, que não falte para o BPN, que não falte para os agiotas alemães. As mais de 1000 pessoas que morreram “a mais” neste período, são só isto, quatro dígitos e dos de menor valor, por sinal. Não são amigos e compadres que podem garantir emprego a este séquito governamental todo, após os 4 (ou 8) anos que irão estar, como o povo também diz, no “poleiro”.

Na minha perspectiva, a saúde pública, já foi. Entregá-la àquele que foi o merceeiro-mor da nação durante vários anos, e que, ainda para mais, foi ex-administrador de um dos grupos que mais lucra com a eliminação da concorrência do Estado na área da saúde, só podia dar nisto. Aceitam-se apostas para o próximo ataque aos serviços públicos. A minha é esta: Segurança Social. Estará para breve, temo.

(Literalmente) PS: Diz o Seguro que este é o Primeiro-Ministro socialmente mais insensível da história da democracia portuguesa. Só não concordo com ele a correr, por duas razões. Por ser quem é, e porque a concorrência para este troféu tem sido feroz desde há largos anos. Mas que temos concorrente de peso em Passos Coelho, ai lá isso temos.

Anúncios
1 comment
  1. O Costa da Graça said:

    Ainda ontem efectuei um pagamento de 43€ nas urgencias do Hospital S. Francisco Xavier, 17€ dos quais eram referentes a um episódio de urgencia de 2009, que não me foi informado desde então.
    Claro que solicitei o livro de reclamações, pois já usei os serviços do hospital várias vezes, efectuando sempre o pagamento, e após essa data e até agora nunca me tinham informado da divida.

    Adicionalmente, se vier a utilizar os SNS, e tendo em conta a subida drastica do valor a pagar, se achar que a qualidade do serviço prestado for inferior, ao que entendo minimo, irei novamente solicitar o livro de reclamação e a devolução do dinheiro.

    Não vou ficar calado!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: