Máquina de fazer dinheiro tem o seu preço

A expansão da massa monetária sem correspondência na criação real de riqueza ou de mais valias, significa que as tensões inflacionárias começam a surgir nos mercados globalizados de bens essenciais, especialmente comida e combustíveis

Ao longo das últimas semanas, temos salientado aqui na Farpa os programas de “facilitação quantitativa” (quantitative easing, ou seja, imprimir dinheiro a torto e direito para dar aos banqueiros e aos correctores da JP Morgan, GoldmanSachs, etc) que têm surgido mais ou menos coordenadamente nas economias do mundo dito desenvolvido. A tendência começou em 2008, com o Banco Central Americano (FED) a dar triliões de dollars criados a partir do nada (“fiat currency”) aos bancos americanos que causaram e lucraram da crise.

Mais recentemente,s obretudo em 2011, a imprensa começou a registar movimentos análogos noutras paragens. Primeiro foi o Banco de Inglaterra que decidiu usar a impressora lá de casa para fazer mais umas libras e uns meses depois segui-se o banco central japonês que decidiu também “injectar liquidez” nas veias da estagnada economia japonesa. Finalmente, o Banco Central Europeu, iniciou o seu próprio programa de impressão de dinheiro à bruta, chamado LTRO (Long Term Refinancing Operation), em que trocam empréstimos a 1% aos bancos europeus por colateral sem valor, num esquema cash-for-trash.

Para usar uma comparação é como se fossemos pedir um empréstimo ao banco e dessemos como garantia não aquele fantástico apartamento novo, mas um terreno em S. Jorge da Murunhanha com um barraco que já ardeu e caiu pelo chão há 20 anos atrás. A coisa do LTRO europeu, nominalmente, serviu (e serve) para salvar os banquinhos alemães e franceses dos problemas gregos e potencialmente dos PIIGS em geral, ao mesmo tempo que deveria também dar espaço de manobra aos ditos bancos para usarem esse dinheiro para emprestar à economia real e fazer lucros.

A ideia seria: vocês recebem este pilim a 1%, mas depois vão re-emprestá-lo aos otários por 4% ao ano (fazendo 3% de lucro) ou investi-lo em mecanismos financeiros, tipo dívida pública dos PIIGs. Quando a taxa de juro da dívida pública portuguesa são (digamos) 7%, então tirar-se-ia um lucrito de 6%. Ou seja, na melhor das hipóteses este esquema era uma licença clara aos bancos para especular e fazer mais dinheiro a partir do nada (tendo em conta que o empréstimo é praticamente à borla e o dinheiro emprestado não existia antes disso).

O que aconteceu foi que os bancos estão em tal situação que não emprestarem o dinheiro a ninguém, mantendo-se o credit chrunch na economia europeia em geral, nem investiram em dívida pública. Pelo contrário, assis que receberam estes dinheiros, puseram-nos de volta nas contas de poupança do BCE (overnight deposits)!! Ou seja, os bancos europeus estão em lamas tão profundas que nem querem usar a oportunidade de investir gratuitamente dada pelo BCE e preferem sentar-se no dinheiro fabricado para o caso de emergência!

Mas, finalmente, depois de meses e anos de criação de dinheirinho faz de conta parece que a brincadeira começa a ter as suas consequências. A expansão da massa monetária sem correspondência na criação real de riqueza ou de mais valias, significa que as tensões inflacionárias começam a surgir nos mercados globalizados de bens essencias, especialmente comida e combustíveis (o preço do barril de petróleo não pára de subir). E porquê? Porque ambos os mercados de comida e combustível são hoje em dia mediados pelos “future markets”, nos quais se negoceiam quantidades e preços do futuro (especulação) com impacto nos preços reais da comida e combustível no presente.

Quem lucra são obviamente os mesmos, grandes intermediários financeiros que beneficiam da subida dos preços e da manipulação dos mercados (de futuros). Esta dinâmica é acelerada pela perda de valor das moedas, dada a extraordinária impressão de dinheiro faz de conta.

The main reason why oil prices are rising is the same reason why food and import prices are soaring as well. Paper currencies across the world are losing their purchasing power against real assets that cannot be increased by fiat. Of course, the Pollyannas on Wall Street will tell you that oil is rising because of a rebounding economy. However, the facts are that gasoline demand is down 6% YOY, while oil inventories are at a six month high. If the global economy was indeed recovering why is the demand for gas at the pump falling? In reality, the global economy is very weak and the U.S. is very far removed from a sustainable recovery.

A consequência provável é que temos à nossa frente anos de estagnação (sem criação de empregos) e inflação crescente, com o respectivo impacto nos níveis de vida. Estamos a falar de estagflação. Ver os dados mais recentes da economia europeia neste post do urso furioso.

Em resumo, o povo vai sofrer com preços mais altos em duas categorias de bens essenciais, comida e combustíveis, enquanto o topo político-financeiro da nossa sociedade global vai continuar a ganhar biliões à custa do sofrimento da base da pirâmide. O custo é socializado, o lucro é privatizado.

Fonte/Link Zero Hedge

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: