O tubo de ensaio grego

ImageO tubo de ensaio da segunda vaga do neo-liberalismo foi a votos. A direita (Nova Democracia) ganhou as eleições sem margem para formar governo. O Partido Socialista (no governo aquando do primeiro pedido de resgate à Troika) foi o maior derrotado. Estes partidos que subscreveram os sucessivos acordos com a Troika tiveram o seu pior resultado de sempre. O maior vencedor foi  a coligação de partidos  da esquerda radical – Syriza – que teve a sua oportunidade de formar governo. Para isso delineou 5* pontos fundamentais de diálogo e encetou conversações com todas as forças políticas progressistas, fossem partidos, movimentos sociais ou sindicatos.  O Partido Comunista (KKE) recusou sequer reunir com a Syriza. Indepedentemente da resposta do KKE, não havia possibilidade aritmética da esquerda formar governo na Grécia.

De facto, o apoio popular que esta coligação teve (mais de um milhão de votos em dez milhões de eleitores) está longe de ser, do ponto de vista democrático, suficiente para servir de base para um governo representativo do programa político que apresenta. Outras forças progressivas de esquerda já chegaram ao poder no passado e foram depostas pela via dos golpes militares da direita com muito mais apoio popular que o da Syriza ou da esquerda grega no seu todo.

Qualquer governo de esquerda que surja neste contexto, com um programa político de ruptura com a troika, seja por via eleitoral ou de “tomada do palácio de inverno”, tem que ter uma base de apoio popular inequívoca. Para as próximas eleições, não basta sacar votos a outros partidos de esquerda (ou de direita), mas sim de disputar e conquistar principalmente o apoio das pessoas que estão descrentes deste sistema político, ou seja, da abstenção. Com base num programa claro e transparente – o que a Syriza tem cumprido, e bem. Também porque é contra o actual sistema eleitoral que garante 50 deputados automaticamente ao partido mais votado.

O futuro da Grécia é o futuro de Portugal e da Europa. Justifica-se tanto ou mais a constituição de “brigadas internacionais” para esta próxima campanha eleitoral grega como se justificou para a Guerra Civil Espanhola. A ruptura com a Troika é a única hipótese de se criar uma luz ao fundo do túnel. Não será fácil, mas o que o povo grego, português e irlandês tem sofrido também não tem sido nada fácil. Vale a pena o risco. Por eles, por nós, para eles e para nós.

À Syriza e às outras forças anti-troika resta ganhar as próximas eleições e ganhá-las bem. Nas urnas e nas ruas.

* Tradução do Nuno Moniz dos 5 pontos propostos pela Syriza para formação de um governo anti-troika:

1) Imediato cancelamento de todas as medidas pendentes de empobrecimento, como cortes nas pensões e salários
2) Cancelamento de todas as medidas pendentes que vão contra os direitos fundamentais dos trabalhadores, como a abolição dos contractos colectivos de trabalho
3) Abolição imediata da lei garantindo imunidade aos deputados e reforma da lei eleitoral (principalmente a questão dos 50 deputados bónus para o partido vencedor)
4) Investigação aos bancos gregos e imediata publicação da auditoria feita ao sector bancário pela BlackRock
5) Uma comissão de auditoria internacional para investigaras causas do défice público da Grécia, com uma moratória em todo o serviço de dívida até serem publicados os resultados da auditoria.

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