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O danidapenha há de escrever-vos em breve sobre os “acontecimentos” ocorridos na manifestção da plataforma 15 de Outubro aquando da nossa última greve geral. Irei aproveitar o tema para reflectir sobre “o fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã”.

Para além de considerar o Sérgio Godinho um vendido que aproveitou o PREC e a altura em que ser de esquerda era moda, esta e outras músicas compostas pelo dito cujo (e outros) tiveram e têm valor, independentemente da vergonha que lhe(s) possam causar.

Como já anteriormente tem sido aqui referido neste blog, aproximamo-nos de uma espécie de regime muito semelhante ao fascismo salazarento com que o Estado Novo nos presenteou em Portugal.

É claro que há muitas diferenças. Não temos que pagar uma licença para ter um isqueiro e podemos estar na conversa com mais de três amigos em público sem que o SIS nos peça identificação. Ah! E também já não há essa merda da guerra colonial pá, um chatice onde morria gente. Ah! E também existe a liberdade de existirem partidos, de nos filiarmos a eles, de votarmos neles e de contribuirmos todos para “estabilizar essa destabilização filha da puta”.

Este aparente estado de liberdade não é sinónimo de democracia. Democracia é um conceito demasiado abstracto para debatermos neste blog, liberdade será demasiado abstracto para debatermos em toda a internet.

A direita representada no governo e no maior partido da oposição foi a favor do pedido de empréstimo (ou “ajuda”) à Troika composta pelo FMI / BCE / UE). Sabiam que, a partir dessa altura, Portugal iria perder a pouca soberania que lhe restava derivada da adesão a CEE e ao Euro. Não foi à toa que a esquerda do PS foi unânime na oposição aos tratados que vinculavam Portugal a estes sistemas político e monetário.

Aqui, não se trata de uma mera questão de “soberania nacional”, mas sim de uma exploração do capital financeiro mais rico sobre o proleteriado mais pobre. Calhou aos gregos, aos irlandeses, aos espanhóis (ontem também em greve geral) e tem calhado com menor intensidade também aos trabalhadores americanos, alemães e franceses, para não falar dos chineses. Menor intensidade, por enquanto.

Aqui,  trata-de de “pensarmos globalmente e agirmos localmente”. Não podemos ceder à chantagem de entrarmos em disputa com quem ganha menos de 1 dólar por dia e chamarmos a isso “competitividade”. É um retrocesso que nos remete aos tempos da Velha Senhora. E para quem ainda tem dúvidas do rumo que o neo-liberalismo está a galgar, é aparecer numa manifestação que não seja convocada pela CGTP. Não se esqueçam é de levar o capacete. Ou de se tentarem juntar a manifestação da CGTP sem terem um cartão com uma foice e um martelo. Porque a esquerda também parece ter muito que aprender.

P.S (com D ou sem D, já há muito tempo que tanto faz): Admito que só tenho pena que, na última manifestação, a Polícia só tenha espancado foto-jornalistas. O que nos impele a uma conclusão de que a PSP não está de todo perdida:  O foto-jornalista é mesmo obrigado a fotografar a realidade e isso para o sistema é inadmissível. Já deturpar a realidade, tarefa que quase todos os outros jornalistas cumprem a troco de um mísero salário mínimo, por muita pena minha não é uma pena punível com 7 cacetadas na cabeça.

Camaradas,

Foi com alguma surpresa que soube que Marcelo Rebello de Sousa tinha sido escolhido para apresentar o vosso livro. Não posso realmente dizer que tenha ficado muito surpreendido pois conheço bem o funcionamento das elites, sei que elas são transversais a esquerda e a direita e sabem proteger-se muito bem. Estar afastado delas ajuda a compreender este fenómeno.

A escolha foi assumida publicamente pelo camarada Francisco Louçã como “polémica”. De facto é polémica, mas apenas para aqueles que nutrem respeito por ambos os camaradas, para aqueles que não esquecem de que lado da barricada estão na luta de classes. Para a burguesia portuguesa esta escolha foi, na melhor das hipóteses, cómica.

Digo-vos que enquanto estratégia de marketing, caso tenha sido esse o motivo do convite (não consigo ver outro), parece-me uma má opção. Dou-vos o exemplo da notícia publicada no jornal PÚBLICO que refere apenas a intervenção de Marcelo e a sua oposição às ideias veiculadas pelos camaradas no livro.

Pergunta o camarada Francisco Louçã no facebook “porquê havemos de seguir o velho preconceito de que quem apresenta um livro é quem está necessariamente de acordo com ele?” E responde a si próprio: “Só vejo vantagens em quebrar esse tabu, convidando alguém que tem certamente outra visão, mas que está bem informado e promove o debate”.

Errado, camarada. Porquê é que tem que ser a esquerda a promover o debate, quando a burguesia não o faz, utilizando todo o tempo de antena de que é proprietária na defesa dos seus interesses? Como se já não bastasse a supremacia da divulgação de ideologia neo-liberal nos meios de comunicação social em relação a qualquer ideia alternativa, onde Marcelo pontifica, actualmente temos o partido de Marcelo a utilizar o seu poder político no governo para censurar todas as vozes incómodas que consegue.

Os camaradas perderam uma excelente oportunidade de terem convidado uma família endividada, uma das cem mil pessoas que têm o salário penhorado, um dos quase dois milhões de pobres em Portugal. Isto sim teria sido uma escolha polémica, mas para a burguesia. São essas as vítimas da Dividadura, são essas as pessoas que mereciam ter tido uma oportunidade de denunciar publicamente as consequências directas do capitalismo nas suas vidas. Espero que seja sobre isso que fale o livro. Eu não o irei comprar nem ler, portanto não o saberei. Encontro-me a modos que, endividado.

Violação & Pilhagem.

Hierarquia Político-economica

Hierarquia Político-economica

Só para o caso de haver ainda almas ingénuas acerca da natureza desta crise económica de 2008 até agora (e sabe-se lá quando acabará), pois veja-se que nos termos do segundo pacote de resgate, não só os gregos vão ser metaforicamente violados à bruta com austeridade, mas também serão literalmente pilhados. Os credores gregos (em resumo, bancos alemães,  franceses e o BCE) vão ter o direito de se apropriar das reservas de ouro gregas caso o país não consiga pagar a sua dívida, que é o mais provável.

Tendo em conta que a Grécia é a cobaia das políticas de crise economico-financeira na União Europeia e do seu instrumento de opressão colonial, o euro, será de esperar que a máfia banqueira tente de uma forma ou outra aplicar o mesmo tipo de remédio aos restantes países periféricos, vulgo PIIGS.

Os PIIGS têm em conjunto 3234 toneladas de ouro, que a preços actuais, valem 185 biliões de euros. 185 biliões para pilhar aos povos mediterrânicos. Isto faz-me lembrar quando as hordes germânicas invadiram e saquearam Roma.  Mas agora a uma escala continental e as hordes bárbaras nem se podem defender dizendo que estão a resistir ao imperialismo romano.

Revolução armada já! Como cidadão PIIGS, sinto-me violado e pilhado pela aliança germano-gaulêsa. Vivemos num regime que já ultrapassou a classificação de liberal e até neoliberal. Nós, no sul, vivemos num neofeudalismo em que a população está posta em servidão. Somos servos-da-gleba, porque tentem emigrar para o centro deste império devorador e vejam como são tratados. Na escala social da europa dita civilizada temos os emigrantes e, depois, acima deles  estão os cães de estimação das loiríssimas e bonitas famílias alemãs. O incentivo social é  ficar para trás e viver em miséria, enquanto os senhores do feudo, os banqueiros, governam os nossos destinos e roubam a nossa riqueza a partir de Frankfurt, Paris e Londres.

Veja-se aqui a tabela com as quantidades de ouro a pilhar, por país:

Ouro para pilhar

Ouro para pilhar

E os alemães já assinalaram o seu interesse no ouro português. Meus amigos, olhem para a Grécia. É para aí que vamos!

Norbert Barthle, Germany’s governing coalition budget speaker and his counterpart Carsten Schneider from the Social Democrats, the biggest opposition party, urged Portugal to consider selling some of its gold reserves to ease its debt problems. They called for a review of Portugal’s request for financial aid to include gold and other potential asset sales.

 E para acabar uma nota sobre a imprensa nacional e internacional. Nenhum “mainstream media” está a noticiar este facto. Liberdade de expressão? Ilusão! Imprensa crítica? Inexistente!

Fonte/Link Zero Hedge & FXStreet

Aproveito este fantástico lema, que tanta polémica levantou há cerca de 9 anos atrás (piada privada), não só para evitar que ele caia no esquecimento mas também como apelo populista à leitura do artigo que se segue. Tentarei em jeito de conclusão justificar politicamente a escolha deste título mais lá para baixo.

Tal como nós, os gregos livraram-se de uma ditatura militar em 1974. Tal como nós, os gregos eram considerados um povo de “brandos costumes”, aliás tal como os egípcios. Pobres, mas honrados (leia-se humildes no sentido passivo do termo). Ao contrário de nós, que mantivemos ocupações em África a custa de milhares de mortos, os gregos foram ocupados pelos nazis durante a 2ª guerra mundial e libertaram-se sem ajuda alheia, apesar do que diz alguma História. Ao contrário de nós, a sua cultura de participação política esteve sempre presente, muito graças aos contributos que deram ao mundo desde a sua origem neste campo (a excepção em Portugal foi o PREC). Para concluir este exercício miserável de análise política comparada, de salientar que Portugal e Grécia tem sensivelmente a mesma população, com a diferença de o PIB grego ser sensivelmente o dobro do nosso.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Manolis Glezos há 6 anos atrás, por ocasião de um festival organizado pelo KOE (Organização Comunista Grega de tendência maoísta) que culminou num acampamento na ilha de Naxos, onde reside. Cidadão admirável, com um passado político notável e de respeito, cujo episódio mais conhecido remonta a 1941, no qual sob ocupação nazi resolveu ir roubar a bandeira do III Reich que se encontrava hasteada no cimo da Acrópole. Esta brincadeira valeu-lhe a prisão em campo de concentração na Grécia (onde morreram milhares de gregos, maioritariamente resistentes comunistas) e só não foi morto devido à forte mobilização nacional e internacional que o seu acto desencadeou em sua defesa. Fiquei na altura surpreendido com a lucidez e sagacidade política que este jovem de 80 e tal anos demonstrava. Afinal, podemos ser politicamente inovadores quando velhos e estupidamente retrógados enquanto jovens.

Foi, portanto, sem grande espanto que me deparei com a fotografia de Manolis Glezos em confronto directo com a polícia grega. Não esperaria outra coisa de quem combateu o nazi-fascismo alemão com a tenacidade que ele o fez nesta altura de luta contra o fascismo financeiro que se está a impor aos países da periferia da Europa. Apesar de ter sido sempre crítico de quem utilizava o termo “fascismo” para caracterizar qualquer coisa reaccionária, conservadora ou ambas, com receio que se “gastasse” o termo, não tenho pejo em afirmar que a realidade da Grécia hoje e de Portugal já amanhã, é esta. Um novo tipo de fascismo, desta vez com a ideologia liberal transnacional dos mercados em substituição das teorias de superioridade nacional ou racial.

E é aqui que, assim de socapa, recupero o título do artigo. Que os trabalhadores não só por essa Europa afora, mas pelo mundo, consigam perceber que só existem dois tipos de pessoas: ricos ou pobres, exploradores ou explorados. Para quem ainda não percebeu a ideia, vou abusar ainda mais de chavões marxistas: Quem controla os meios de produção e distribuição por um lado e quem apenas tem a sua força de trabalho para vender. Porque uns só sobrevivem graças aos outros, e os outros não precisam de uns para sobreviver. Estou solidário com o povo grego, também porque sei que o governo português está solidário com o governo grego. E ambos estão solidários com o governo alemão e francês, que estão ambos solidários um com o outro. E o poder político que governa o mundo neste momento é mera correia de transmissão do capital financeiro.

Alex Gomes

Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte. 

Eça de Queirós, in ‘Farpas (1872)’

O que se passa em Portugal trata-se de um projecto político e social com ambições tão largas que se poderá mesmo considerar revolucionário. Uma revolução de direita. Uma revolução disfarçada e que está a ser feita nas costas daqueles que dependem apenas do rendimento do seu trabalho.

Caro Alex,

Li o teu artigo “A manifestação ou o Pastel de Nata” e gostaria de fazer uns comentários tangenciais. Não tenho nada a dizer acerca do que escreves, mas gostaria de verborrear um pouco sobre o contexto político que enquadra o teu artigo.

Reparei que para apelar à participação numa manif, que é de claro interesse para quem trabalha, achastes necessário esvaziar o dito apelo de qualquer conteúdo mais ideológico e interpretativo.

A necessidade de proceder deste modo demonstra como o espaço de debate intelectual em Portugal está limitado. Os opinion makers, com o Zé da Tasca em apoio imediato, proclamam verdades a alto e bom som, entre elas: que vivemos para além das nossas capacidades, que não se pode questionar a necessidade de cortes, que qualquer protesto é “politiquice”, que os comunistas são uma espécie de parque jurássico, que “etc etc etc”…

Esta abordagem satura o espaço de opinião pública com os velhinhos adágios de sempre (que vêm do bloco central e dos seus amiguinhos empresariais). Claro que isto não se faz só por fazer. Há uma intenção clara de uniformizar interpretações da situação portuguesa e marginalizar aqueles que têm algo diferente para dizer.

Está na altura de todos percebermos que a Austeridade é um projecto político que visa assegurar uma redistribuição de rendimentos invertida. Em vez de redistribuir dos que têm mais, o projecto político da austeridade visa assegurar que os rendimentos das classes mais baixas sejam comprimidos de forma a financiar o topo da nossa sociedade.

O Memorando de Entendimento com a Troika é, na verdade, um plano de ação política que visa criar uma rede institucional para proteger a elite com posse de meios financeiros (money-power, asset values, rendas capitalistas, etc). O que o PSD fez, pela mão do Coelho, foi copy-paste do memorando para o seu programa eleitoral.

Apenas como exemplo permitam-me listar algumas das medidas do memorando:

  • Reformar a lei da bancarrota pessoal em beneficio dos credores (isto num país em que as famílias tem altos níveis de endividamento)
  • Reduzir o número de funcionários públicos em 15% e desmantelar unidades de administração geográfica (Juntas de Freguesia – em curso)
  • Aumentar a proporção de trabalhadores com contratos temporários na administração pública (isto equivale a uma redução nos direitos dos trabalhadores e também a uma maior dependência do poder político dos trabalhadores da administração pública)
  • Reduzir o orçamento da Saúde por 30% (em curso)
  • Reduzir o período do subsídio de desemprego para um máximo de 18 meses e criar um plafond máximo para o subsídio bem como uma redução progressiva depois dos primeiros 6 meses (em curso)
  • Reduzir as indeminizações por despedimento e subvencionar despedimentos através do Estado (em curso)
  • Alterar a lei do trabalho para permitir criar uma força de trabalho volátil e contingente para o sector industrial e reduzir os direitos dos trabalhadores dos portos marítimos (as mercadorias têm que circular, caso contrário o capitalismo sofre!)
  • Reduzir a percentagem de horas extras que podem ser legalmente pagas (ou aumentar o horário de trabalho – em curso)
  • Avaliar e medir a representatividade dos sindicatos que negoceiam acordos colectivos e avaliar o impacto das suas exigências na competitividade das empresas e reduzir o poder sindical diminuindo o limite legal de tamanho da empresa/número de trabalhadores de forma a fragmentar o movimento sindical (esta medida é absolutamente escabrosa e, se nada mais falasse das intenções políticas que temos no governo, isto seria suficiente)
  • Ligar o financiamento das escolas a ratings de performance, quer sejam privadas ou públicas (isto vai ser fantástico! Está claro que o projecto político da austeridade quer dar dinheiro ao sector privado da educação e destruir o público)
  • Liberalizar mercados de gás e electricidade e eliminar preços regulados (não admira que os chineses estejam interessados na EDP – é fazer o povo pagar)
  • Reduzir o investimento estatal em energias renováveis (escandaloso!!!)
  • Privatizar o serviço de mercadorias da CP e privatizar as linhas suburbanas da CP (já não era fácil viajar em Lisboa, será ainda pior e mais caro)
  • Eliminar qualquer controlo sobre as rendas à habitação e criar mecanismos EXTRA-judiciais para despejar inquilinos  e reavaliar o valor fiscal de propriedade urbana (obviamente com vista a criar um mercado imobiliário que possa sustentar uma bolha de investimento…)

Estas são algumas das medidas que saltam à vista no memorando de entendimento. E são já suficientes para perceber que o processo a que Portugal está agora sujeito não é uma reestruturação, ou arranjo das contas públicas. Trata-se de um projecto político e social com ambições tão largas que se poderá mesmo considerar revolucionário (especialmente se o PSD e a Alemanha conseguirem empurrar o seu projecto de mudança constitucional de forma a inserir limites à despesa pública).  Uma revolução de direita. Uma revolução disfarçada e que está a ser feita nas costas daqueles que dependem apenas do rendimento do seu trabalho.

E ninguém pode argumentar contra, porque o espaço público de opinião está colonizado pelos cyborgs produzidos nas jotas, pelos Frankenstein dos comentários televisivos e notáveis colonistas deste nosso canteiro. E neste sentido, a revolução à direita é também muito pouco democrática e definitivamente opaca, porque os líderes revolucionários e os seus testas de ferro ideológicos não assumem os seus objectivos e escondem as suas ações por trás de discursos moralistas de avozinha e de compromissos internacionais. Compromissos internacionais que mostram até que ponto se está a criar uma classe capitalista transnacional, que co-opta as elites locais num projecto revolucionário a nível global de concentrar a riqueza extraída do que a todos pertence num pequeno grupo de pessoas.

Estamos assim numa situação em que temos de defender não só formas de criação e distribuição de riqueza mais justas, mas também defender os princípios básicos da democracia, cada vez mais erodidos: igualdade de todos os cidadãos, liberdade de expressão e solidariedade (que se expressa em justiça económica e social). Por isso, sim, vamos à manif e atrevamos-nos a falar de política e ideologias abertamente. Vejamos este governo e esta democracia liberal que temos pelo que verdadeiramente são: uma pilhagem às classes não-capitalistas.

Irei revelar, já na próxima frase, vários segredos praticamente quase tão bem guardados como a identidade dos maçons portugueses: os ajuntamentos populares em forma de multidão organizada que ostentam faixas e pancartas enquanto desfilam e entoam palavras de ordem nas ruas com o objectivo de mostrar desagrado por qualquer coisa ou de defender determinada ideia (conhecidos vulgarmente por “manifestações”) não foram inventadas nem pelo PCP nem pelo BE. E qualquer pessoa pode (deve) participar nelas caso concorde com os motivos pelos quais a dita cuja foi convocada, tendo ou não um cartão de militante de um qualquer partido na carteira, sendo de esquerda, de direita, do centro, de cima ou de baixo. Mas a conversa sobre os partidos fica para outra ocasião.

Admitindo que não faço a mínima ideia de qual foi a primeira manifestação digna desse nome, nem tão pouco de quem a organizou, e demonstrando com estas afirmações ao mesmo tempo a minha ignorância e humildade, já me sinto mais à vontade para verborrear um pouco de
História: Há cerca de 126 anos (foi só fazer as contas), no dia 1 de Maio de 1886 em Chicago, milhares de ociosos trabalhadores desfilaram para exigir a jornada de trabalho máxima de 8 horas por dia. Nesse mesmo dia, essa cambada de preguiçosos que não queria contribuir para a produtividade do país, fez uma greve geral nos EUA (a conversa sobre as greves também vai ficar para outra ocasião). Seguiram-se outras manifestações nos dias seguintes às quais a polícia tentou, carinhosamente, trazer os mandriões à razão, com um saldo final de 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua. Ah, quase que me ia esquecendo de um pormenor sem importância: 4 anos depois o governo norte-americano legislava um máximo de 8 horas de jornada de trabalho por dia.

E com isto acabei de justificar a utilidade das manifestações, responsabilizando ao mesmo tempo todos os que apenas dependem da sua força de trabalho para sobreviver e que não se insurjam contra os ataques constantes aos direitos dos trabalhadores como traidores da sua própria classe, mas também acusando-os de desrespeito para com a memória daqueles que lutaram para que hoje tenhamos férias, feriados, segurança social, e como diria o Lauro Dérmio personificado pelo grande filósofo português Herman José, and soion, and soion. No fundo uma vida de privilégios, ao contrário dos pobres seres humanos que tanto perderam com a crise, como Eduardo Catroga. Mas não nos vamos chatear por 54 mil pintelhos por mês. Ainda por cima pagos pelo Estado chinês.

Reconheço que, pelo menos em Portugal, os partidos, os sindicatos e outras organizações aproveitaram-se e continuam a aproveitar-se politicamente, apesar de em menor intensidade, dos movimentos sociais de génese apartidária. Mas quem nunca se tenha aproveitado de um jantar entre conhecidos para tentar engatar alguém que atire a primeira pedra. Por vezes há quem esqueça que essa entidade “o Partido” não é abstracta nem desprovida de qualquer participação humana, a julgar pela forma como se lê e ouve a leviandade com que muitos dizem que “a culpa é dos partidos”. Mas juro que a conversa sobre partidos fica para um próximo artigo.

Também confesso que, pelo menos em Portugal, historicamente, a maior parte das manifestações que conseguem mobilizar mais pessoas têm na sua organização partidos ou sindicatos. Mas felizmente essa realidade começou a mudar com a manifestação da Geração à Rasca no 12 de Março de 2011, que originou e evoluiu, de alguma forma, para a actual Plataforma 15 de Outubro. Eu sei que muitas das organizações pertencentes a esta plataforma podem parecer esquisitas, como a Marcha Global da Marijuana de Lisboa, a cuja organização eu pertenço, mas garanto que são bem intencionadas.

Podem-se tentar encontrar tantos objectivos para a realização de uma manifestação como correntes trotskistas na Grécia. Para mim, em última instância sobra apenas uma: CONTAGEM DE CABEÇAS. E por isso e mais uma vez como continuo sem saber muito bem como acabar artigos, apelo a todos os que concordam com o propósito da próxima manifestação do dia 21 de Janeiro a deixarem de lado as pintelhices e a participarem, nestas e nas vindouras, desde que, obviamente concordem com os seus objectivos. Nem que seja genericamente. Nem que lá hajam militantes de partidos. A todos os outros um grande puta-que-vos-pariu, vão lá ser empreendedores e fazer franchises do pastel de nata.

“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem” Rosa Luxemburgo.