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Desemprego

O Romântico Euro
O Romântico Euro

A Situação

A Austeridade é uma política pública desastrosa. A taxa de desemprego europeia (na zona euro) está em 10.8%. O que corresponde a um recorde de 13 anos e a um total de 17.1 milhões de desempregados. Nas economias germânicas, Austria e Alemanha, a taxa anda nos valores mais baixos (4% e 6% respectivamente), enquanto que nos países PIIGS, que estão activamente a implementer medidas de repressão financeira, a taxa de desemprego está dos 15% para cima. Leve-se ainda em consideração que há muitos sinais suspeitos que fraude nos números de desemprego é generalizada e existe até na Alemanha (ver este artigo).

Desemprego na Zona Euro

Os doutores da austeridade irão argumentar que isso se deve à falta de competitividade das economias do sul. E até pode ser, em termos de indicadores económicos. Mas as razões vão mais fundo. Como Richard Seymour argumentou no artigo que aqui re-publicámos, a situação actual de produtividade revela um canibalismo intraeuropeu em que a Alemanha (e potências associadas) cresce à custa das economias mais fracas, numa tendência que começou mais visivelmente nos anos 90 quando a Alemanha tomou medidas para suprimir salários (baixar os custos) e a procura interna (mantendo a inflação em baixo, logo os custos macroecómicos) e reorientar a produção, não para consumo interno, mas para os mercados de exportação.

Isto são precisamente o tipo de políticas económicas que o Passos defende e que a Merkel dita. O objectivo da Austeridade é reprimir as economias. O problema é que não há necessariamente crescimento, nem a longo prazo. Porque a Alemanha precisa de usar o instrumento da dívida de países como Portugal para financiar a procura externa dos seus mercados de exportação. E usar a dívida permanente como instrumento de controlo político significa que Portugal não se consegue livrar da escravatura da dívida que lhe é imposta, assegurando um futuro brilhante e expansionário à economia alemã (â custa de Portugal e outros PIIGS).

E a curto prazo, como já temos batido constantemente na tecla, a austeridade conduz à contracção acelerada da economia com contracção imediata do PIB e aumento dos níveis de privação da maioria da população, porque o Estado está basicamente a tirar riqueza de circulação e distribuição (ou melhor, a tirar riqueza e a distribuir para cima, em vez de para baixo, da pirâmide social).

E se prova querem de que esta crise austeritária se trata realmente da Alemanha a tomar controlo da zona euro e respectivas economias para seu benefício, só há que ver, por exemplo, o que aconteceu recentemente. O primeiro ministro grego já pôs na mesa a hipótese de um 3º resgate, porque as eleições estão aí à porta, e é preciso que os alemães façam chover dinheiro para garantir que um governo amigável e pró-colonial seja eleito. Entretanto, possivelmente, as exigências austeritárias sobre a Grécia vão diminuir e o dinheiro (ou parte dele) do resgate será colocado numa conta segregada, à qual o governo grego não terá acesso, e que servirá para pagar imediatamente aos credores (leia-se bancos alemães que financiam a procura externa à indústria alemã, bancos franceses e o BCE).

Germany, after ‘trapping’ many countries in the e-Zone ignored their situation while Germany continues to post increasingly lower-than-required rates of inflation as many in EMU ahve run higher rates. As a result of this, there is a huge competitiveness conundrum in the Zone. It seems to have been engineered by Germany-and they are great engineers. (…)

What allows the US to to maintain a union that has areas of vastly different real income, property values, etc, is its fiscal transfer system. Germany instead of dealing with today’s issues, and assisting with development (instead of just bail-out bucks) wants to roll the clock back and set up what I have called a Bento-box view of Europe in which GERMANS will be made safe as each member of EMU will have its own mandated balanced budget and will be put in a Germanic-like straight jacket of fiscal responsibility. Hey that sounds like fun!

The Euro zone is NOT the German Zone. It was not formed and does not exist for the benefits of Germans. But as Germany is in a position of power it is now trying to bend every EMU nation to its way of doing things. This widespread use of austerity is foolishness. You may denigrate ‘Keynesianism’ a term that is such a cartoon and straw-man that it has no meaning, but austerity in the midst of recession is tomfoolery!

If policy were geared for the average EMU country the Zone would be quite different. But it is not; it is geared for Germany making everyone else much worse off relative to Germany. Instead of having a zone with most members tightly clustered around the average with Germany and Greece as outliers we have a policy that is being run for one extreme of the Zone – Germany! (Zero Hedge)

Eis o mesmo tema abordado em entrevista ao Francisco Louçã na Real News Network, fazendo a ligação também aos interesses financeiros-banqueiros e de como a dívida é uma forma de escravatura moderna (em Inglês):

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Uma possível solução usando a Modern Monetary Theory

O Instituto Levy de Economia da Universidade de Bard (EUA) publicou um pequeno paper publicitanto uma ideia nova: Títulos de dívida pública que, caso o Estado não possa pagar de volta, se transformam automaticamente em créditos fiscais. Ou seja, se eu tiver  100 euros em títulos de dívida pública e tenho que pagar 150 euros de imposto este ano, posso usar os meus títulos para amortizar essa dívida, ficando apenas a dever 50 euros ao Estado a ser pagos de forma tradicional (via transferência monetária).

Este conceito está alicerçado no facto de que o que dá valor ao dinheiro de papel hoje em dia, em que já não existe o padrão-ouro, é:

  1. a capacidade do Estado em recolher impostos. Ou seja, o valor de uma nota está garantido pela capacidade de taxação e não por directa associação a nenhum recurso raro e preciso (o ouro).
  2. A possibilidade de pagar esses mesmos impostos usando a moeda de papel reforça o seu valor monetário (uma lógica ligeiramente circular, mas é tema para outra discussão)

Assim, os títulos de dívida publica transformar-se-iam numa forma parelela de moeda, permitindo basicamente aos PIIGS emitir moeda de novo sem sair da zona euro e dando-lhes mais instrumentos para se financiarem a curto prazo. Os problemas estruturais continuariam, mas pelo menos haveria espaço para considerar políticas alternativas e atenuar o impacto da crise na população. A questão é se a Alemanha permitirá este esquema. Se este sistema funcionasse, a Alemanha perderia de imediato muito do seu poder, se bem que a curto prazo isso permitir-lhe-ia continuar a usufruir de um mercado de exportação rechonchudo.

O artigo explicando os pormenores desta proposta pode ser lido aqui.

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Despedimento Colectivo

Despedimento Colectivo

A crónica de um despedimento anunciado começou em Janeiro, numa sexta-feira em que eu faltei ao trabalho por estar doente. O Conselho de Redacção (visto que, no jornal onde trabalho, não existe comissão nem delegado sindical) foi chamado ao gabinete do António Costa, director do Diário Económico e soube que iam ser despedidas pessoas, entre as quais um número ainda indeterminado de jornalistas, porque o grupo Económico tinha de passar por “uma poupança da ordem dos dois milhões de euros durante o ano de 2012”. O António Costa explicou que “este ajustamento foi explicado pela expectável queda de 10 a 15% das receitas de publicidade, nas receitas de vendas e também noutras áreas de negócio”, uma quebra que ainda não se verificou mas que é calculada pelo grupo para 2012. Isto apesar de “o Diário Económico ter alcançado, de Setembro a Dezembro de 2011, as melhores audiências de sempre”.

Soube, portanto, por um telefonema da minha editora que ia haver despedimentos. Na semana seguinte, o António Costa ia começar a chamar gente para lhes comunicar que iam sair e depois o processo de negociação seria entregue aos recursos humanos. A minha vez chegou na terça-feira seguinte. O director comunicou-me que o despedimento não tinha nada a ver com a qualidade do meu trabalho mas com a necessidade da empresa de reduzir custos. Custos que não podem, de forma alguma, ser cortados nos salários milionários das estrelas que o Económico foi contratando ao longo de 2011 ou dos seus oito directores e sub-directores, que além disso têm carros de alta cilindrada pagos pela empresa e três secretárias que ganham mais do que muitos jornalistas juntos. Eu comuniquei-lhe que não tinha nada que lhe dizer e que depois falaríamos.

Nos recursos humanos, apresentaram-me uma proposta a condizer com o salário de miséria (com subsídio de alimentação, 500 euros) que me pagaram durante quatro anos: um mês de salário por cada ano passado na empresa. Entretanto, um grupo de jornalistas e outros trabalhadores do Diário Económico, eu incluída, tinha decidido ir ao Sindicato dos Jornalistas falar do que estava a acontecer. O advogado do sindicato não foi muito animador em termos de promessa de luta: vamos ser despedidos, façamos o que façamos. Mas sempre podemos pedir indemnizações mais altas, o que tem sido conseguido por jornalistas de outros meios de comunicação social está entre os 1,3 e 1,5 salários por ano. Sobretudo, os nossos salários são ilegais… Primeiro, porque o vencimento base está abaixo do salário mínimo nacional. Segundo, porque não respeitam as tabelas salariais dos jornalistas.

São mais de vinte as pessoas a serem despedidas do Económico, algumas com 20 anos de casa. Apesar de o António Costa ter dito que “tomaram em conta preocupações sociais”, pelo menos um dos despedidos é um pai de dois filhos cuja mulher já está desempregada. Todos os despedimentos foram tratados de forma individual, como “rescisões amigáveis”, apesar das condições oferecidas a cada um serem exactamente as mesmas: um despedimento colectivo encapotado.

Ninguém quer lutar pelo seu emprego, todos querem sair. Apesar do ambiente ser mau “lá fora”, dentro da empresa consegue ser pior. Desde que a Ongoing comprou o Semanário Económico e o Diário Económico, esta deixou de ser a nossa casa para passar a ser mais uma empresa portuguesa: um lugar de escravidão e caciques.

Actualização: Entre Janeiro e Março, sindicalizei-me e soube que teria direito a mais de 9.000 euros de indemnização por me pagarem abaixo do salário mínimo durante o tempo que trabalhei na empresa. Saio, assim, do Diário Económico um pouco mais remediada. Mas continuo com a estranha impressão que eles lucraram muito mais com o meu trabalho do que aqueles milhares de euros… E começaram já os rumores de que o jornal vai fechar e de que todos os jornalistas irão para a rua. A campanha do medo para que todos os “amigavelmente despedidos” aceitem os acordos baixíssimos que lhes propõem está, ainda, em curso.