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Escândalo

Para quem tiver tempo, deixamos aqui uma conferência sobre a desculpa de “intervenções humanitárias” para lançar guerras de agressão e extracção de recursos não consensual em países estrangeiros pelas potências ocidentais.

O vídeo tem 2h30m em total. Aconselhamos em particular a secção de Glenn Greenwald, que começa ao minuto 57 e 40 segundos.

Resumo (em inglês):

the discourse over humanitarian intervention has often overlooked the more unsavory aspects of liberal thought and Western power politics. This panel will explore the fundamental problems concerning Neo-Liberalism and its connections to the development of Neo-Orientalist thought. The panel will begin with Professor Pitts providing the historical foundations of liberal thought and its relationship with the colonialist ventures of Western European nations; Professor Bassiouni will then discuss the development of international law in the post-World War era and its use as an instrument to advance the strategic goals of great powers of the Cold War Era; Mr. Greenwald will then contextualize the use of international law and humanitarian intervention to justify U.S. involvement in foreign countries, especially in the Middle East, as well as advance U.S. geo-political strategy in the post-Cold War Era; and it will conclude with a discussion by Professor Ramadan on the academic study of Orientalism, the rise of Neo-Orientalism in conjunction with Neo-Liberalism, and influence of Neo-Orientalist thought in the formation of Neo-Liberalism and political policies towards the Middle East and beyond.

 

A quase extinta e desmantelada RTP2 saiu-se, neste 25 de Abril de 2012, com um excelente documentário de 48 min chamado “Donos de Portugal”, baseado num livro homónimo publicado em 2010.

O documentário identifica e segue a oligarquia plutocrática portuguesa que se formou no século XIX e que sobrevive, melhor: prospera, até hoje sob os auspícios e protecção do Estado. Os produtores deram-se ao trabalho de criar um mapa geneológico que relaciona estas famílias e que assegurou que ao longo das décadas a sua riqueza e poder económico não só se mantivessem intactos como crescessem exponencialmente, apesar de pequenos soluços como o 25 de Abril.

O documentário analisa como estas famílias tiveram relações priveligiadas com todos os regimes políticos do século passado e corrente e fala abertamente do fenómeno “revolving door”, através do qual detentores de cargos políticos se tornam gestores de grandes empresas monopolísticas e vice-versa.

Com maior interesse para a situação actual, o documentário dedica a última meia hora ao período pós 25 de Abril, com especial ênfase nas privatizações que começaram em 1982 com a revisão constitucional, a candidatura à CEE e abertura ao centralismo de Mário Soares. O que o documentário mostra é que as privatizações correspondem ao uma apropriação sem limites de bens e rendas públicas por um número de famílias oligárquicas muito reduzidas e que este processo foi apoiado e financiado pelo próprio estado, ao mesmo tempo que esta rede de instituições (bancos, EDPs, Sonae, etc etc) entrou cada vez mais no mercado de produtos financeiros e se endividou brutalmente, o que criou, de facto, a dívida pública portuguesa. O Estado socializou os custos da banca e transferiu-os para o orçamento nacional.

Um documentário absolutamente essencial para perceber a situação em que vivemos e para ir além das narrativas dominantes que culpam o zé povinho pela crise. Saber e conhecer é já uma forma de acção política.

O site do documentário: http://www.donosdeportugal.net

Neste artigo limitar-me-ei a dar o palco ao Sr. Michael Hudson, professor de economia na Universidade do Missouri (Kansas City), um dos poucos centros académicos nos Estados Unidos a tentar incluir no debate sobre a crise actual a Modern Monetary Theory, cujos princípios são em muito contrários à banha de cobra que o neoliberalismo, através do FMI, da Comissão Europeia e  do BCE, quer impôr na Europa.

Michael Hudson está também associado ao Levy Institute of Economics (já referenciado neste blog) da Universidade Bard (2 horas a norte de Nova Iorque), e que se distingue por um pensamento económico ligeiramente mais progressivo do que as correntes que dominam os discursos oficiais.

Temos então dois vídeos sobre o tema da escravatura da dívida e expropriação:

1. Nesta entrevista, Michael Hudson explica como as políticas da troika se destinam a proteger a posição dos dententores de capital (sector bancário de investimento) em relação ao resto da população, resultando numa redistribuição de riqueza de baixo para cima da pirâmide social. Analisa os particulares da situação europeia e dos PIIGS e compara-a com anexação territorial e ocupação militar, já para não dizer roubo. Uma das ideias chaves é que a austeridade resulta num falhanço inevitável nas metas de consolidação fiscal e orçamental, o que “obrigará” os Estados a alienar património a preços de pechincha (TAP, EDP, Águas e Saneamento, etc etc etc).

2. Este vídeo é a palestra que Michael Hudson deu recentemente em Berlim. Nos primeiros dez minutos faz uma resenha da actual resposta política e económica que tende a piorar a situação (expropriação da população para pagar aos bancos) e dá 3 possíveis e simples soluções para travar o sistema oligárquico sob o qual vivemos hojem em dia no mundo ocidental.

Finalmente, para os mais interessados, podem ler o paper que está na base desta palestra neste link.

Como exemplo da vida real do que as palestras em cima explicam, vejam este vídeo do despejo de um casal de idosos na Irlanda pelo Anglo Irish Bank, por falta de pagamento do empréstimo à habitação. Agora, levem em consideração que o Anglo Irish Bank foi resgatado pelo governo irlandês usando o dinheiro dos contribuintes, mais precisamente 34 biliões de euros. De uma forma sádica, e no que é praticamente um assalto à mão armada (pela polícia, pelo Estado e pelo banco), este casal de idosos é expropriado da sua casa por um banco que ajudaram a salvar com os seus impostos!

Num extraordinário momento de hipocrisia moral, política e económica, o Banco Central Europeu está a defender o direito dos seus trabalhadores a terem pensões ajustadas à inflação automaticamente, enquanto recomendam precisamente o contrário para os salários e pensões da zona euro, em especial, os países em “ajustamento estrutural” (para usar os palavrões do FMI).

By Stephan Ewald, who works in the financial sector and lives in Cologne, Germany. He contributes to the blog http://www.wiesaussieht.de and you can follow him on Twitter at @StephanEwald

On its website the European Central Bank proclaims the mission of the Eurosystem (emphasis mine):

The Eurosystem, which comprises the European Central Bank and the national central banks of the Member States whose currency is the euro, is the monetary authority of the euro area. We in the Eurosystem have as our primary objective the maintenance of price stability for the common good. Acting also as a leading financial authority, we aim to safeguard financial stability and promote European financial integration.

Since the start of the Eurosystem our brave inflation warriors at the ECB regularly praise themselves what a heck of the job they are doing about their primary objective the maintenance of price stability. But yesterday the German Daily Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) published an article (German), that our guardians of price stability fight another good fight. The employees of the ECB want their own pensions to be inflation protected.

So the same folks who lecture member states of the Eurozone about the danger of private sector labor and pension contracts being inflation-indexed because of moral hazard want their own pension contracts inflation-indexed. For this fight to be successful ECB employees deploy a very evil institution: the central banker union IPSO. According to the FAZ article a former employee sued the ECB with the help of IPSO at European Court of Justice.

Which begs the question: what hypocritical morons are working at the European Central Bank?

Deixo-vos com uma pergunta: acham que o Governo português e a sua retórica de crise é em alguma coisa diferente? É de alguma forma menos hipócrita?

Tirado do blog Naked Capitalism

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O danidapenha há de escrever-vos em breve sobre os “acontecimentos” ocorridos na manifestção da plataforma 15 de Outubro aquando da nossa última greve geral. Irei aproveitar o tema para reflectir sobre “o fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã”.

Para além de considerar o Sérgio Godinho um vendido que aproveitou o PREC e a altura em que ser de esquerda era moda, esta e outras músicas compostas pelo dito cujo (e outros) tiveram e têm valor, independentemente da vergonha que lhe(s) possam causar.

Como já anteriormente tem sido aqui referido neste blog, aproximamo-nos de uma espécie de regime muito semelhante ao fascismo salazarento com que o Estado Novo nos presenteou em Portugal.

É claro que há muitas diferenças. Não temos que pagar uma licença para ter um isqueiro e podemos estar na conversa com mais de três amigos em público sem que o SIS nos peça identificação. Ah! E também já não há essa merda da guerra colonial pá, um chatice onde morria gente. Ah! E também existe a liberdade de existirem partidos, de nos filiarmos a eles, de votarmos neles e de contribuirmos todos para “estabilizar essa destabilização filha da puta”.

Este aparente estado de liberdade não é sinónimo de democracia. Democracia é um conceito demasiado abstracto para debatermos neste blog, liberdade será demasiado abstracto para debatermos em toda a internet.

A direita representada no governo e no maior partido da oposição foi a favor do pedido de empréstimo (ou “ajuda”) à Troika composta pelo FMI / BCE / UE). Sabiam que, a partir dessa altura, Portugal iria perder a pouca soberania que lhe restava derivada da adesão a CEE e ao Euro. Não foi à toa que a esquerda do PS foi unânime na oposição aos tratados que vinculavam Portugal a estes sistemas político e monetário.

Aqui, não se trata de uma mera questão de “soberania nacional”, mas sim de uma exploração do capital financeiro mais rico sobre o proleteriado mais pobre. Calhou aos gregos, aos irlandeses, aos espanhóis (ontem também em greve geral) e tem calhado com menor intensidade também aos trabalhadores americanos, alemães e franceses, para não falar dos chineses. Menor intensidade, por enquanto.

Aqui,  trata-de de “pensarmos globalmente e agirmos localmente”. Não podemos ceder à chantagem de entrarmos em disputa com quem ganha menos de 1 dólar por dia e chamarmos a isso “competitividade”. É um retrocesso que nos remete aos tempos da Velha Senhora. E para quem ainda tem dúvidas do rumo que o neo-liberalismo está a galgar, é aparecer numa manifestação que não seja convocada pela CGTP. Não se esqueçam é de levar o capacete. Ou de se tentarem juntar a manifestação da CGTP sem terem um cartão com uma foice e um martelo. Porque a esquerda também parece ter muito que aprender.

P.S (com D ou sem D, já há muito tempo que tanto faz): Admito que só tenho pena que, na última manifestação, a Polícia só tenha espancado foto-jornalistas. O que nos impele a uma conclusão de que a PSP não está de todo perdida:  O foto-jornalista é mesmo obrigado a fotografar a realidade e isso para o sistema é inadmissível. Já deturpar a realidade, tarefa que quase todos os outros jornalistas cumprem a troco de um mísero salário mínimo, por muita pena minha não é uma pena punível com 7 cacetadas na cabeça.

Depois de uma pausa primaveril para recuperar do estado danificado dos nossos corações, causado pelo que está a ser feito aos muitos desgraçados deste mundo pela sede de dinheiro e poder de alguma elite nacional, regional e internacional, eis que estamos de volta para continuarmos com a indignação. Olhemos então para o que diz a comunidade internacional acerca do nosso tema preferido, a crise de dívida europeia e o nosso país de pequenos mafiosos, pequenos capitalistas e minúsculos políticos.

Reggie Middleton, conhecido corrector da bolsa americana e comentador, tem isto a dizer acerca do estado actual da economia portuguesa depois de todas estas medidas de austeridade à mercado-livre-passos-coelho:

Portugal’s GDP growth contracted even further by 1.3% q/q in Q4. Its HICP Moderated to 3.4% y/y in January. Very high unemployment (currently at 14% and rising), weakening wages, and a total dearth of credit to businesses and households (do you really think bond-busted banks are lending to and within Portugal like the good ‘ole days) will lead to a downward spiraling self-fulfilling prophecy that is the antithesis of what appears to be driving all of those rosy estimates behind reports that Portugal won’t default.

Ou seja, quanto mais austeridade, pior a situação social e económica. E quanto pior a situação, mais alarme e desculpas usa o governo para implementar austeridade adicional como solução. A este ritmo será mesmo a solução final para o país inteiro.

Mas não se alarmem! Enquanto houver bens e serviços públicos para roubar (perdão: privatizar), nomeadamente coisas como a TAP, a RTP, os serviços de água e saneamento, o que resta dos transportes públicos urbanos neste país, e outros etc, os nossos camaradas alemães e os drones financeiros do FMI vão continuar a dizer que Portugal é exemplar e não deixarão cair o país. Quando a coroa não tiver mais jóias, olha, aí vamos todos para cloaca, porque, obviamente!, somos preguiçosos e não gostamos de trabalhar.

Mais ou menos simultaneamente, o Guardian saiu-se com um artigo (ver o link no final do texto) onde identifica o potencial para desastres humanos, especialmente com a situação no serviço nacional de saúde a restringir o acesso a grandes camadas da população com rendimentos baixos, o que seriam por exemplo as 20.5% de pessoas a viver neste país com privações materiais em 2010 (o que deve estar ainda pior neste momento):

E porque razão estamos nesta situação? Porque o mundo está feito num casino financeiro, onde as elites que operam os mercados em Londres, Nova Iorque, Frankfurt fazem o que querem e roubam abertamente de todos os outros. Eis um excelente exemplo que veio a público na semana passada: Greg Smith, um director da Goldman Sachs, que trabalhou para a companhia durante 12 anos, demitiu-se com uma carta aberta a denunciar as práticas fraudulentas da empresa.

No artigo merece especial menção este parágrafo, em que ele explica como a empresa tem como hábito enganar e explorar os seus clientes:

What are three quick ways to become a leader?

a) Execute on the firm’s “axes,” which is Goldman-speak for persuading your clients to invest in the stocks or other products that we are trying to get rid of because they are not seen as having a lot of potential profit.

b) “Hunt Elephants.” In English: Get your clients some of whom are sophisticated, and some of whom aren’t to trade whatever will bring the biggest profit to Goldman. Call me old-fashioned, but I don’t like selling my clients a product that is wrong for them.

c) Find yourself sitting in a seat where your job is to trade any illiquid, opaque product with a three-letter acronym.

I attend derivatives sales meetings where not one single minute is spent asking questions about how we can help clients. It’s purely about how we can make the most possible money off of them.

Para um comentário detalhado acerca do caso, ver esta entrevista com Yves Smith, autora do Naked Capitalism blog e participante no movimento OWS:

Também útil é este episódio do Kaiser Report:

 

Fonte/Link BoomBustBlog & The Guardian (Portugal) & The Guardian (Greg Smith)